Esboço,
Porque havemos de averiguar os processos mentais por detrás dos comportamentos -
Os processos mentais por detrás das faculdade da mente -
O que é o processamento de informação -
O que é a inteligência artificial -
Onde pretendemos chegar com essa investigação -
De que pressupostos parte uma Psicologia que se institui como ciência?
Dualismo,
O Sujeito não é matéria.
- E sendo o Sujeito, vontade? - O que será a consciência em relação ao Sujeito?
domingo, 24 de abril de 2011
If, Kipling, Rudyard
If
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!
Tabacaria - Álvaro de Campos
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
Cântigo Negro - José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
sábado, 16 de abril de 2011
O falso conforto da religião
O homem comum entende como sendo a sua religião um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas deste mundo com uma perfeição invejável, e que por outro lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existênca, por qualquer falha nesta vida. O homem comum só consegue imaginar essa Providência sob a figura de um pai extremamente elevado, pois só alguém assim conseguiria compreender as necessidades dos filhos dos homens ou enternecer-se com as suas oraões e aplacar-se com os sinais dos seus remorsos. Tudo isto é tão manifestamente infantil, tão incongruente com a realidade, que para aquele que mnifeste uma atitude amistosa para com a humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de estar acima desta visão de vida.
É ainda mais humilhante descobrir como é grande o número de pessoas hoje em dia, que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável, e, no entanto, tentam defendê-la sucessivamente, numa série de lamentáveis actos retrógados. Gostaríamos de pertencer ao número de crentes, para podermos advrtir os filósofos que tenta preservar o Deus da religião substituindo-o por um princípio impessoal, obscuro e abstracto, e dizemos: «Não usarás o nome de Deus em vão!». Alguns dos grandes homens do passado fizeram o mesmo, mas isso não serve de justificação para nós; sabemos porque é que tiveram que o fazer.
Sigmund Freud, in A Civilização e os Seus Descontentamentos!
terça-feira, 12 de abril de 2011
Prólogo
Quando Zaratustra chegou aos trinta anos, deixou a sua pátria e o lago da sua pátria, e foi para a montanha. Ali viveu, alimentando-se da sua sageza e da sua soledade, e dez anos passaram sem que se cansasse. Mas sucedeu que o seu coração mudou, e uma manhã, tendo-se levantado com a aurora, pôs-se em frente do sol e assim lhe falou:
«Ó grande astro! que seria da tua felicidade, se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que sobes até à minha caverna; e ter-te-ias aborrecdo da tua luz e deste trajecto, se não estivessemos aqui, eu, a minha águia e a minha serpente.
Mas nós esperávamos-te todas as manhãs, para tomar o teu supérfluo e te dar graças. Vê: enfastiei-me da minha sageza, como a abelha que acumulasse demasiado mel; tenho precisão de mãos que se estendam para mim.
Queria dar, prodigalizar a minha sageza, até ao dia em que os homens sábios entre os homens se sentissem felizs por ser loucos, e os pobres felizes por serem ricos.
Para isso vai ser me necessário descer às profundidades, como tu fazes todas as noites, quando mergulhas abaixo do mar para r levar a tua luz ao mundo subterrâneo, astro transbordante de riqueza. Terei de declinar como tu, como dizem os homens para os quais quero descer.
Abençoa-me, pois, olho afável que pode ver se einveja mesmo o excesso de felicidade! Abençoa a taça que vai transbordar e que o seu ouro corrente vá levar por todos os lados o reflexo da tua felicidade! Olha: esta taça aspira a esvaziar-se de novo, e Zaratustra aspira a tornar a ser homem.»
Assim principiou o declínio de Zaratustra.
Nietzsche, Assim falava Zaratustra
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Ensaio Sobre a Paz de Espírito
Que tenhamos todos inteligência
E saibamos viver com elegância
E, oxalá, possamos dar importância
À simplicidade e à eloquência.
Não desprezemos - nunca - a experiência
E desenvolvamos a tolerância.
Que haja, em toda e qualquer circunstância,
Uma dose certa de complacência.
Que saibamos controlar a tendência
Que temos, de fugir para a arrogância
Porque é seguro que a relutância
Nos retorna em jeito de consequência.
Que valorizemos a persistência
E fechemos os braços à petulância
E jamais permitamos que a ânsia
Nos tome por completo a existência.
E saibamos viver com elegância
E, oxalá, possamos dar importância
À simplicidade e à eloquência.
Não desprezemos - nunca - a experiência
E desenvolvamos a tolerância.
Que haja, em toda e qualquer circunstância,
Uma dose certa de complacência.
Que saibamos controlar a tendência
Que temos, de fugir para a arrogância
Porque é seguro que a relutância
Nos retorna em jeito de consequência.
Que valorizemos a persistência
E fechemos os braços à petulância
E jamais permitamos que a ânsia
Nos tome por completo a existência.
Ana Ramos,
11-06-2009
Hoje chamar-lhe-ia lenga-lenga, mas passou o tempo que a paz de espírito guarda
Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar
Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões.
Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou - apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberada facilidade declaramos - "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar - "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistênca mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios.
Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou - apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberada facilidade declaramos - "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar - "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistênca mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios.
Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Eça de Queiroz, in «A Correspondência de Fradique Mendes»
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Manifesto
“Estaremos à rasca?”
I
Estaremos à rasca …
enquanto uma qualquer geração projectar nas outras a origem e a solução dos seus problemas
enquanto quisermos respostas simplistas para problemas complexos
enquanto monoculturas forem preferidas a culturas diversificadas, e isto refere-se tanto a eucaliptos como a pensamentos únicos
enquanto continuarmos a governar e gerir pessoas e recursos numa perspectiva exclusivamente masculina, falocentrica, numa lógica de exploração e conquista, dos homens e mulheres e da Natureza também
enquanto não houver expressão das verdadeiras necessidades das pessoas junto dos seus representantes, e enquanto essa expressão não obtiver um eco empático verdadeiramente humano
enquanto continuarmos a confundir “necessidade” com “luxo”, a confundir “bem-estar” com “consumo”
enquanto acreditarmos que o lixo que produzimos magicamente se esfuma quando os camiões nocturnos o afastam dos nossos olhos
enquanto perpetuarmos sistemas piramidais em prejuízo de sistemas horizontais
enquanto continuarmos a acreditar que quanto maior, melhor, sem perceber que, tal como certa obesidade nos faz perder a consciência do nosso corpo, a macrodimensão dos bancos, empresas, corporações faz com que estas e as pessoas que as lideram percam contacto com o seu objectivo último, que deveria ser o de servir os outros
enquanto insistirmos em crescer impulsionados por energias esgotáveis, poluentes e arriscadas, como são o petróleo e o nuclear, em vez de, de uma vez por todas, reduzirmos o gasto, sendo mais eficientes, aproveitando os recursos inesgotáveis como sol, vento e marés, ou seja, ouvindo a natureza em vez de a querermos ultrapassar
enquanto não percebermos que, se quisermos evoluir, temos de mudar a nossa ideia de progresso
enquanto a lógica do lucro for mais importante do que a da generosidade
enquanto continuarmos a fechar os olhos ao monstro que temos debaixo da cama, a quem chamamos “o sistema”, que cresce e cresce como um cancro, alimentado por nós, pelos nossos actos e pelo nosso MEDO de ver a sua verdadeira dimensão. E digo-vos: o monstro é monstruoso…
II
Uma vez que o quadro que pintei se parece em muitas coisas com o retrato do mundo que nos aparece nos jornais e ecrãs de televisão, bem podemos dizer: estamos à rasca!
Um “à rasca” também pode ser um “arisco”. Os ariscos às vezes descem parte do lençol que lhes tapa os olhos e olham o monstro…:
Bancos estão a falir, deixando na ruína milhares de pessoas que pouparam vidas inteiras e que já não confiam na justiça. Países inteiros entram em falência e, depois de serem roubados por… pois é, de novo por bancos macrocéfalos…, são boicotados pelos mass media e até pelos motores de pesquisa na rede porque… porque são livres. A revolução no Egipto, na Argélia ou na Líbia enchem os telejornais e a rede, são povos oprimidos que se revoltam. Na Islândia, o povo tomou literalmente o Parlamento, demitiu o Governo, recusou-se a pagar a obscena dívida dos bancos e, milagre, está a ser governada por um conjunto de cidadãos. Em que noticiário viram isto? Tentaram procurar no Google?
Rupert Murdoch possui uma grande percentagem dos media britânicos e americanos. Haverá isenção nas “suas” notícias quando estas falarem de factos que põem em causa o sistema do qual Murdoch é um dos maiores beneficiários?
O que estou a fazer agora? A olhar para o monstro debaixo da cama. Sabem de que se alimenta? De medo e de dinheiro. Deste dinheiro. Do meu dinheiro. Do teu dinheiro.
III
À rasca arisco… Mas será que arrisco? Porque há muito risco envolvido (mas há muito risco de qualquer maneira…). Arriscamos?
Arriscamos mesmo descer uma Avenida de Liberdades, se soubermos que, com o clamor das nossas vozes e o vibrar dos nossos passos o mundo em que crescemos e vivemos poderá ruir de facto, como um facto parece ser essa ruína? Sabendo que temos preços altos a pagar naquilo a que chamamos o nosso conforto, o nosso bem estar, a nossa ideia de nós mesmos?
Talvez comecemos o caminho para deixar de estar à rasca quando
percebermos que nada nos é dado e que quase tudo tem de ser construído
percebermos que não há crescimento sem dor, sem frustração, sem enfrentar os tais medos e sem levar na cara, ou levar nalguns ideais, ou nalgumas ideias, como por exemplo a de que tenho direitos sem ter deveres. Quando doer, quando levar, e não amuar, e não fizer birra, então talvez comece a deixar de estar à rasca…
quando percebermos que somos nós que alimentamos o monstro com os nossos actos, e em particular os actos de consumo. Sou eu que consumo o plástico hediondo que mata a vida nos oceanos. Sou eu que faço não só o preço do petróleo subir ao consumir mais e mais gasolina, como o petróleo continuar a ser o ouro negro desta civilização. Devíamos agradecer cada cêntimo de subida no preço deste infame liquido. Andemos mais, muito mais, dividamos o carro nas viagens grandes. Falando em dividir..
Talvez deixemos de estar à rasca quando a competição der lugar à cooperação
quando a pirâmide der lugar ao círculo
quando o vertical der lugar ao horizontal nas relações entre as pessoas
quando consumirmos tendo em conta que tudo vem da Natureza e do trabalho e que ambos têm de ser respeitados
quando percebermos que SOMOS NATUREZA, e que explorar a Natureza é explorarmo-nos
quando o trabalho que escraviza for substituído por entrega que liberta (e não, não me estou a esquecer da História…)
quando formos exigentes connosco próprios, com aqueles que amamos e com os nossos representantes
quando a pragmática do “ter” for substituída pela evidência do “ser”
Quando finalmente nos lembrarmos que não nos chamamos “teres humanos” mas sim “SERES humanos”
quando a lógica do lucro for substituída pela ética da solidariedade
quando os egos inchados que nos levam às guerras, grandes e pequenas, forem tocados (e trocados) pelo amor
quando percebermos que são menos as coisas que nos separam e mais as coisas que nos ligam uns aos outros.
IV
Utópico? Mas como não ser utópico se o “topos”, o lugar que me oferecem para viver se está a transformar num lugar antibiótico, como os remédios que nos dão à primeira dor que aparece?
Por tudo isto tenho vindo a construir e participar de rituais neste cadinho do mundo que se chama “dISPAr teatro”, noutros círculos que frequento, e nalguns dos fóruns de que vou participando. Um desses rituais é o do círculo, que permite que nos encontremos com verdade, olhos nos olhos, que permite que nos toquemos.
Para terminar vou ler-vos um poema. Sugiro a quem quiser que aceite um desses rituais: pedir aos espectadores (ou espect-actores, como prefere Boal…) que toquem em alguém. Hoje, peço-vos que estejam em contacto com duas pessoas pelo menos, durante o poema. Quando este terminar, pedirei que se olhem nos olhos e digam: “Obrigado, e bem (h)ajas”.
Porque dizer “obrigado”, dizer “ob ligatio”, é como dizer “estamos ligados”, e só vejo um caminho rico para nós se for feito em ligação. “Bem (h)ajas” convoca-te, na sua duplicidade fonética, para que tenhas o Bem, aquilo que é Bom para todos, mas também para que ajas em função dele. Obrigado e bem hajam, com e sem “h”.
António Gonzalez
Três coisas
Três coisas pra mim no mundo, valem bem mais do que o resto
Pra defender qualquer delas, eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto
Pra defender qualquer delas, eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto
O gesto é a voz do proibido, escrita sem deixar traço
Chama, ordena, empurra, assusta, vai longe com pouco espaço
É o passo, é o gesto, é o grito
É o gesto, é o grito, é o passo
O passo começa o voo que vai do chão pró infinito
P’ra mim que amo estrada aberta, quem prende o passo é maldito
É o grito, é o passo, é o gesto.
É o passo, é o gesto, é o grito
O grito explode o protesto se a boca já não dá espaço que guarde o que há pra ser dito
É o grito, é o passo, é o gesto. É o gesto, é o grito, é o passo
É o passo, é o gesto, é o grito
Mário Lago
terça-feira, 5 de abril de 2011
"Recentemente"
«(...) Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária. (...)»
Fernando Pessoa in Os Portugueses - A Opinião Pública
domingo, 3 de abril de 2011
Ler é bom para a saúde
Todo o mundo me diz que tenho que fazer exercício. Que é bom para a minha saúde. Mas nunca ouvi ninguém dizer a um desportista: tens que ler.
José Saramago
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