quarta-feira, 30 de março de 2011

Acordai

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza*

[Os Lusíadas, X, 145]

Que matéria é esta de que o nosso tão português há cinco séculos a esta parte nos já falava com nostalgia*? Será que são a tristeza e o apagamento que nos unem uns aos outros numa espécie de poeira universal? Uma acomodada e indiferente cegueira que não repara? Estará mecanizado o processo de acordar todos os dias? A intencionalidade/ abertura ao mundo - ao conhecer-o-mundo, onde cabe?

domingo, 27 de março de 2011

Multidão

Em multidão
os homens parecem maiores do que são.

Nela
a nossa voz,
tão rude quando cantamos sós,
parece mais bela.

Num coro de cantar
sai cá para fora
tudo o que há em nós de sol no luar.

(O resto - os sonhos mesquinhos -
fica para a solidão
dos caminhos.)

José Gomes Ferreira

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pouca-terra, pouca-terra

No final do Verão de 2010, não sei precisar o dia, passei a ter que me deslocar de transportes públicos, todos os dias da semana, sábado às vezes. Comboio e metro. Cerca de cento e quarenta minutos por dia, onze horas por semana que passo em transportes.

No início, a viagem passava rápido, entre a confusão da novidade e o embalo arredondado dos pensamentos que se acomodavam no assento do comboio. No metro, as várias estações, com nomes tão diferentes, tomavam o lugar umas das outras por debaixo da cidade. Não reparava em ninguém, todos estavam longe de mim. Um mês passado e o caminho expandiu-se, o tempo esticou até se tornar cansaço. Quando as horas de trabalho começaram a ultrapassar em muito as de descanso, e parecia impossível pensar noutra coisa com menos tortura, comecei a apreciá-lo e a senti-lo como parte de mim. Quando lhe damos atenção, ele deixa de gritar. Foi nessa altura que, não sei se por magia ou se por romantismo, percebi que há pessoas que viajam comigo todas as manhãs, e perdi também o pudor de colar os olhos durante a viagem e entregar-me ao engano confortável e sossegado do sono curto.

Começa-se a conhecer as pessoas com quem nos viajamos todos os dias, que se sentam à nossa frente e ao nosso lado; geralmente sentam-se nos mesmos lugares, depois adeus, até amanhã, vou para o trabalho, para a escola, para a universidade. Percebe-se um pouco da sua rotina, conhece-se as vozes, decora-se os rostos, bem como a estação em que entram e a persistência com que procuram o mesmo lugar de ontem, de ontem, de ontem. Começa-se a sorrir naturalmente e a sentir algum afecto, sumido, ainda assim (não podia ser de outra maneira).

Depois há as pessoas que se conhece do metro, as pessoas do comboio que entram no mesmo metro, ou no outro, e aí descobre-se: já são duas coisas em comum. Por vezes  ouve-se um nome, e fica-se a saber um pouco mais (mais nada) sobre as pessoas. Normalmente os meus olhos são atraídos pelos livros que os passageiros lêem, e de quando em vez, atiro um olhar a uma página, vejo o número, leio uma frase.

O mais engraçado é quando encontro, em sítios onde não costumo ir, pessoas que conheço do comboio. A troca de olhares admirados, se falasse, diria: "Conheço esta cara de onde?" - é delicioso!


domingo, 20 de março de 2011

É a nossa geração?(!)

«Pertenço a uma geração - ou antes a uma parte de geração - que perdeu todo o respeito pelo passado e toda a crença ou esperança no futuro. Vivemos por isso do presente com a gana e fome de quem não tem outra casa. E, como é nas nossas sensações, e sobretudo nos nossos sonhos, sensações inúteis apenas, que encontramos um presente, que não lembra nem o passado nem o futuro, sorrimos à nossa vida interior e desinteressamo-nos com uma sonolência altiva da realidade quantitativa das coisas».

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

sábado, 19 de março de 2011

Manifestamente falando

Existe uma quantidade de angústias e pensamentos a bater à porta como se chovesse lá fora. Vou deixá-los entrar e transformá-los em opiniões. Estão secos e limparam os pés.

Nós, os contribuidores de Face à Face, fazemos reuniões regularmente, e numa delas, discutimos sobre algumas características do actual sistema de ensino com as quais não estamos de acordo. Uma das questões apontadas foi a visível fragmentação das áreas de saber, que isola demasiadamente os alunos de cada agrupamento (Ciências e Tecnologias/ Ciências Sociais e Humanas/ Artes Plásticas/ Economia) (só me referindo aos cursos científico-humanísticos) na sua área. A partir dos 15 anos de idade, em média, os alunos ficam com o pensamento orientado para a área que escolheram estudar. Este método tem as suas inegáveis vantagens, e um exemplo é o facto de alguns alunos poderem estudar aquilo que lhes mais interessa com maior profundidade e, previsivelmente, elevar o rendimento escolar. No entanto, acredito que esta selecção, ainda que não seja definitiva, cria pessoas deformadas. Se fosse possível fazer uma radiografia psicológica, posso afirmar com alguma probabilidade de estar certa que iriam surgir algumas cabeças enormes em relação ao resto do corpo (ver imagem). Nalgumas delas poder-se-ia ler "Matemática", noutras "História", noutras "Geometria Descritiva", etc.

Neste momento, poucas pessoas, jovens principalmente, existem que conheçam o funcionamento do Estado Português. Parece-me fundamental que qualquer cidadão que exerça o direito ao voto e que participe de alguma forma nas decisões políticas e sociais do seu país, conheça a organização do Estado, saiba o que se passa na Assembleia da República, perceba em traços gerais a Democracia. Assim, em situações de crise, é preciso que cada um entenda o que pode fazer para chegar ao Estado. Saber o que pode reivindicar e como fazê-lo. Com conhecimento de causa, tudo se torna mais transparente, fundamentado, e, portanto, legítimo. É também uma forma de conhecermos a nossa posição na nossa sociedade e no mundo.

Têm estalado manifestações e greves em todo o país nos últimos meses. Fala-se na rua, atiram-se insultos aos políticos, que "não sabem governar" e "só fazem o melhor para eles", formulam-se afirmações baseadas em outras conversas que se ouve nas ruas, o que torna crescente o descontentamento e a ofensa. Fala-se de olhos vendados e ouvidos estrangeiros, tomam-se medidas que não se fazem notar.

Há cerca de uma semana atrás, a propósito de uma ideia que dirigi às pessoas que se manifestam sem apresentar alternativas, ou sequer fazer o exercício de pensar nelas de forma global, recebi a seguinte resposta: «E não é o mais importante, as pessoas sentirem na pele o descontentamento? Ninguém tem de saber política para ver.» No incêndio da discussão, fiquei a sentir-me uma péssima pessoa. No entanto, não posso concordar. Estamos a falar de coisas diferentes: ninguém precisa de entender o que se está a passar para experimentar o descontentamento. Mas o que se pretende não será ao certo entender que algo não está a funcionar... Isso percebe-se à partida, pois não existe crise social se a sociedade tiver o funcionamento desejável. O que se quer é perceber o que está mal e como pode passar a funcionar.

Penso que é visível que se tornou senso comum estar deprimido com a política e com a sociedade. Mas o senso comum não gera soluções praticáveis e objectivas para os problemas. Encontra soluções pela negação do estado presente das coisas, o que é tão simples como falacioso. A título de exemplo: "Não tenho emprego; Quero ter emprego. Não ganho o que mereço; Quero ganhar o que mereço." 

Na minha opinião, e voltando ao início do texto, seria benéfico introduzir a disciplina de "Ciência Política" em todas as escolas do ensino secundário, em todos os agrupamentos e não só no de Ciências Sociais e Humanas. A ignorância assusta e produz comportamentos estéreis.

Não somos outro país nem temos outros governantes, mas podemos tornar-nos cidadãos informados e conscientes. Isso seria bom...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Manifesto de uma Manifestação minha

O ligeiro nevoeiro daquele Sábado de Março tornava ténue o corpo robusto da multidão que saiu às ruas de Lisboa. Talvez seja Adamastor. O clamor das vozes humanas em uníssono atrai-me, confesso. São como ninfas que na sua dança (en)cantam.

Entranho-me neste corpo de humanos, chego a fazer parte dele, mas, na realidade, apenas sou um observador que quis fitar o mundo por dentro. Passo por ele invisível, da mesma forma que ele passa por mim, mas visível aos meus olhos. Quero mirar este humano.

Diz a lenda que D. Sebastião, o símbolo fecundo de um novo império, voltará por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, oriundo de uma ilha longínqua onde esteve à espera da hora do regresso.

Hoje, esta massa rompeu o nevoeiro. Será símbolo do nascimento de um novo império? Não sei. Porém, estas consciências reuniram-se e tornaram-se numa só, numa única voz. Será que não contêm em si o gérmen de algo maior? Será o prelúdio de uma nova manifestação? Simbolizará a possibilidade de uma revolução da consciência?

sábado, 12 de março de 2011

Manifestação, Geração à rasca

O protesto aconteceu hoje, em vários pontos do país. Levou mais de duzentas mil pessoas à Avenida da Liberdade, e a multidão espalhou-se pela baixa lisboeta. As razões do movimento são, como as pessoas por nós abordadas, as óbvias. Desmistificando o óbvio, arrancando-o à circularidade do conceito, as evidências apontam para que aquilo que levou as pessoas à manifestação foi o facto de se sentirem desconfortáveis (umas mais que outras) com a actual situação político-social, e também económica, mas motivos concretos e soluções objectivas não foram indicados.

Uma breve reflexão sobre o que observei hoje, relacionada com alguns conhecimentos, prefiro dizer ideias, acerca da sociedade, permite-me dizer com segurança que se atravessa uma crise mais grave que a económica, social ou política - uma crise de identidade, uma crise de sentido. A expansão de um mundo industrial ofegante, cria, na minha visão, uma crescente insegurança nas pessoas, que deixam de entender qual o seu papel no mundo. Encontram uma contradição entre a necessidade de viver em sociedade, em relação com os outros e com o mundo, e o desejo de se reconhecer como ser individual, com objectivos e metas individuais.

A referida insegurança afecta um pouco todas as pessoas, sendo esta, mais uma vez na minha forma de ver, a causa de os indivíduos se acomodarem e acabarem por aceitar passivamente as condições que se lhes impõem. Isto arruina a formulação e verbalização de críticas, o que resulta em que as pessoas não oiçam as suas opiniões. A melhor forma de conhecer algo, é falar sobre esse algo, trazê-lo à linguagem. Os pensamentos e as opiniões não são diferentes, o processo de tornar-se coerente requer uma organização conceptual, possível pela linguagem. Este processo é tem dimensões que não se podem medir, pois sempre levanta novas questões. É neste processo que nos conseguimos conhecer e pensar, de forma global e contextualizada. De outra maneira, não vejo como será possível conhecermo-nos e realizarmo-nos pessoalmente.

No entanto, e porque aprendemos/agimos na sociedade em que somos introduzidos pela reprodução de comportamentos-modelo, e não existem propriamente benefícios imediatos do esforço implicado no pensamento crítico, as pessoas não procuram construí-lo: isso não lhes dá dinheiro para pagar a casa e as contas.

No século XX, Abraham Maslow concebeu uma hierarquia de necessidades, na qual organiza sequencialmente as necessidades humanas, das mais primárias, que ficam na base, até às espirituais, que ficam no topo da pirâmide. As necessidades que estão na base, que têm obrigatoriamente que ser satisfeitas para que se possa passar ao patamar seguinte, são as «necessidades fisiológicas», onde se incluem a alimentação, higiene, sexo, excreção, homeostase, entre outras. Em seguida, vêm as «necessidades de segurança» do corpo, do emprego, da família, da saúde e da propriedade. Posteriormente, tem-se «amor/relacionamento», seguido de «estima» e, finalmente, quando todas as outras estiverem satisfeitas, é possível procurar atingir a «realização pessoal». Eu arriscaria agrupar as necessidades fisiológicas e de segurança num subgrupo mais abrangente, do conforto físico, ainda que necessário, para que seja mais fácil compreender a seguinte afirmação: as pessoas movimentam-se de forma circular na satisfação das necessidades primárias, de bens de consumo, num mecanismo de positivo feedback. Parece-nos óbvio que não é possível atingir a realização pessoal se não tivermos acesso a água ou alimentos, mas o que venho criticar é a forma como os obtemos. As pessoas compram cada vez mais, e cada vez mais caro, e é em bens de consumo que investem maioritariamente, em especial do mundo político, em que o poder de compra é obviamente mais elevado. Os próprios objectos, e agora penso em computadores, televisões, rádios, são construídos para não durar muito tempo, porque não duram. Há uma visível concentração em dar conta das mesmas necessidades, apenas com instrumentos diferentes, tecnologicamente mais evoluídos, mas não se passa daí. Isto observa-se na presença dos mais diversificados produtos nos mercados, em que há uma forte concorrência entre marcas, publicidades, funcionalidades. Desta maneira, ficamos igualmente sem procurar atingir a estima e a realização pessoal (falando sempre em termos globais).

Uma das coisas que chamou a minha atenção durante as abordagens aos populares no protesto, embora não me tenha surpreendido, foi o facto já referido de as pessoas não terem justificado de forma coerente a sua presença no mesmo. Muitos dirigiram-se até lá para "ver" ou por "solidariedade", o que me faz acreditar que, realmente, as pessoas individuais são movidas pelas massas, mais uma vez, sem pensar criticamente sobre a acção. Voltando ao princípio da manifestação, a saber, combate à precariedade laboral, administração de recibos verdes, desemprego, etc., mas focando-me agora na precariedade, penso que este é um estado com o qual qualquer pessoa se pode identificar. O sentimento de que "podia estar melhor" é comum a uma grande parte.
Porém, considero que é fundamental compreender a génese deste conceito: precariedade.
               precariedade, nf Qualidade de precário.
                  precário, adj De pouca duração; contingente; incerto; inseguro; difícil; escasso; minguado; frágil; delicado.
A precariedade está dentro ou fora de cada um? Será que existe mesmo quando cumprimos os nossos objectivos, quando nos esforçamos, nos envolvemos profundamente e quando temos vontade? A precariedade mata a vontade (por exemplo, quando as situações são adversas no local de trabalho) ou é a vontade que é geralmente precária? - Na minha opinião, a precariedade não mata a vontade, nada a mata. A vontade, abertura ao mundo, é o que de mais nosso possuímos, o maior e mais divino. Nesse caso, e porque todo o cruzamento de contextos que é o indivíduo, é naturalmente elástico, a vontade que é forte não se deixa abalar, a menos que esteja enfraquecida de raíz. Faz então sentido pensar nas razões que levam a que a vontade dos indivíduos não seja tão forte que permita lutar (de forma devidamente fundamentada, segura e justificada) a favor da não-precariedade. Um dos factores que o não permite, a meu ver, é o facto de o sentido da vida de cada um estar adulterado pela ilusão social da negatividade e do trabalho obrigatório, recompensado monetariamente. Este cenário não pode continuar a ser visto sem esperança, nem sem vontade de mudar de verdade. Ainda não sabemos se a manifestação de hoje terá as consequências pretendidas, se é que as há.

Ainda não se sabe se o protesto de hoje foi histórico, só com o tempo se saberá. No entanto, tapar mais um buraco pode resolver o problema temporariamente, vai adiá-lo. Uma das revoluções necessárias é um pouco aquilo que estivemos a fazer no dia de hoje, ao interrogar as pessoas sobre o que as levou às ruas de Lisboa. É convidá-las a exercitar o pensamento e a perceber a dádiva de estar-no-mundo, tomar consciência das suas capacidades e dos outros. Isto abre portas a diversos mundos, e não é um projecto tão utópico quanto possa parecer. É-o, mas no bom sentido. Prende-se com uma mudança na forma de pensar que pode surgir quando se começar a tratar o ser humano como um todo verdadeiramente. Esquivo-me, desculpando-me da extensão do meu discurso, à operacionalização de "tratar o ser humano como um todo", mas a questão poderá vir a ser discutida.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Poema do menino Jesus

«Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
(...)
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça! (...)»
Alberto Caeiro

(des-)asseio

«Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.


Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação do não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento. (...)»

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 42

quinta-feira, 10 de março de 2011

Moralmente doentes

"Já não há indignação espontânea, que é a boa, a verdadeira indignação. Existe uma doença do espírito: o mal da indiferença dos cidadãos. Estamos todos moralmente doentes."
José Saramago nas Suas Palavras

O peso ou a leveza?

"Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado (das schwerste Gewicht).
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
Que escolher, então? O peso ou a leveza?"

A Insustentável Leveza do Ser
Milan Kundera
«A beleza não é uma qualidade inerente às coisas. Ela existe apenas na mente de quem as contempla.»

Essays and treatises on several subjects
David Hume

Apresentemo-nos

Uma breve apresentação, breve e sem insistência.

Sou eu, mais ninguém poderia ser. Porque considerariam sequer que eu fosse algo que não eu? Questiono-me.

Sou eu, a tudo aspiro e procuro tocar, alcançar o próximo e ver aí uma parte de mim anteriormente disfarçada e não-identificada. Sou eu e procuro ver os planos que me são vedados, pois neles participo e conluio comigo e outros...
O meu "eu" foi-me dado sem nada pedir em troca, foi por mim criado por um despropositado propósito que só eu conheço e desconheço, incógnito, um "eu" que se deu a si mesmo.
Estranhamente familiar, estranhamente diferente, no meu trato e expressão aparentemente indiferente.

Sou, efectivamente e inegavelmente, eu.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O som é mudo, mas a massa aumenta, na paz húmida e esverdeada de um recanto que murmura algumas palavras imperceptíveis e a nutre com a presença. De momento, não há diferenciação que se acuse, nem nada pode fazer prever qual a direcção dos nós que só quatro letras ditam no código de genes, mas, o que move as quatro letras? Uma anti-matéria analfabeta chamada consciência? Ou será o contrário? Ou será que tudo se transforma? O que é tudo? Existem respostas? Espero que não, porque enquanto não existirem, continuaremos à procura, com a ingénua crença de que poderemos encontrar um sinal que mereça esta designação. A massa em formação aumenta e há-de se diferenciar, a atmosfera é húmida, o som é surdo, e não há respostas.

terça-feira, 8 de março de 2011

Gosto de não-fazer: pedir um livro emprestado para não o ler, aprender uma canção para não a cantar (nem baixinho), fazer um chá e vê-lo a arrefecer sem o bebericar nem um bocadinho. Dá para pensar, não dá? É como ter um blog para não escrever. É bom.