quarta-feira, 30 de março de 2011
Acordai
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza*
[Os Lusíadas, X, 145]
Que matéria é esta de que o nosso tão português há cinco séculos a esta parte nos já falava com nostalgia*? Será que são a tristeza e o apagamento que nos unem uns aos outros numa espécie de poeira universal? Uma acomodada e indiferente cegueira que não repara? Estará mecanizado o processo de acordar todos os dias? A intencionalidade/ abertura ao mundo - ao conhecer-o-mundo, onde cabe?
domingo, 27 de março de 2011
Multidão
os homens parecem maiores do que são.
Nela
a nossa voz,
tão rude quando cantamos sós,
parece mais bela.
Num coro de cantar
sai cá para fora
tudo o que há em nós de sol no luar.
(O resto - os sonhos mesquinhos -
fica para a solidão
dos caminhos.)
segunda-feira, 21 de março de 2011
Pouca-terra, pouca-terra
domingo, 20 de março de 2011
É a nossa geração?(!)
sábado, 19 de março de 2011
Manifestamente falando
quarta-feira, 16 de março de 2011
Manifesto de uma Manifestação minha
O ligeiro nevoeiro daquele Sábado de Março tornava ténue o corpo robusto da multidão que saiu às ruas de Lisboa. Talvez seja Adamastor. O clamor das vozes humanas em uníssono atrai-me, confesso. São como ninfas que na sua dança (en)cantam.
Entranho-me neste corpo de humanos, chego a fazer parte dele, mas, na realidade, apenas sou um observador que quis fitar o mundo por dentro. Passo por ele invisível, da mesma forma que ele passa por mim, mas visível aos meus olhos. Quero mirar este humano.
Diz a lenda que D. Sebastião, o símbolo fecundo de um novo império, voltará por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, oriundo de uma ilha longínqua onde esteve à espera da hora do regresso.
Hoje, esta massa rompeu o nevoeiro. Será símbolo do nascimento de um novo império? Não sei. Porém, estas consciências reuniram-se e tornaram-se numa só, numa única voz. Será que não contêm em si o gérmen de algo maior? Será o prelúdio de uma nova manifestação? Simbolizará a possibilidade de uma revolução da consciência?
sábado, 12 de março de 2011
Manifestação, Geração à rasca
sexta-feira, 11 de março de 2011
Poema do menino Jesus
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
(...)
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça! (...)»
(des-)asseio
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação do não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento. (...)»
quinta-feira, 10 de março de 2011
Moralmente doentes
"Já não há indignação espontânea, que é a boa, a verdadeira indignação. Existe uma doença do espírito: o mal da indiferença dos cidadãos. Estamos todos moralmente doentes."
O peso ou a leveza?
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
Que escolher, então? O peso ou a leveza?"
Apresentemo-nos
Sou eu, mais ninguém poderia ser. Porque considerariam sequer que eu fosse algo que não eu? Questiono-me.
Sou eu, a tudo aspiro e procuro tocar, alcançar o próximo e ver aí uma parte de mim anteriormente disfarçada e não-identificada. Sou eu e procuro ver os planos que me são vedados, pois neles participo e conluio comigo e outros...
O meu "eu" foi-me dado sem nada pedir em troca, foi por mim criado por um despropositado propósito que só eu conheço e desconheço, incógnito, um "eu" que se deu a si mesmo.
Estranhamente familiar, estranhamente diferente, no meu trato e expressão aparentemente indiferente.
Sou, efectivamente e inegavelmente, eu.
