domingo, 23 de outubro de 2011

Diálogo

Eis o que o espírito que pairava sobre a água do aquário perguntou ao aprendiz de filósofo, Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoiadendron giganteum com os seus cem metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está vivo na borboleta. O aprendiz de filósofo respondeu, O bicho-da-seda não morreu, a borboleta é que morrerá, depois de desovar, Já o sabia eu antes que tu tivesses nascido, disse o espírito que paira sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a gente sabe de que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo, Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes deste, Qual de nós dois é filósofo, Nem eu neu tu, tu não passas de um aprendiz de filosofia, e eu apenas sou o espírito que paira sobre a água do aquario, Falávamos da morte, Não da morte, das mortes perguntei por que razão não estão morrendo os seres humanos, e os outros animais, sim, por que razão a não-morte de uns não é a não-morte de outros, quando a este peixinho vermelho se lhe acabar a vida, e tenho que avisar-te que não tardará muito se não lhe mudares a água, serás tu capaz de reconhecer na morte dele aquela outra morte de que agora pareces estar a salvo, ignorando porquê, Antes, no tempo em que se morria, nas poucas vezes que me encontrei diante de pessoas que haviam falecido, nunca imaginei que a morte delas fosse a mesma de que eu um dia viria a morrer, Porque cada um de vós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertences-lhe, E os animais, e os vegetais, Suponho que com eles se passará o mesmo, Cada qual com a sua morte, Assim é, Então as mortes são muitas, tantas como os seres vivos que existiram, existem e existirão, De certo modo, sim, Estás a contradizer-te, exclamou o aprendiz de filósofo, As mortes de cada um são mortes por assim dizer de vida limitada, subalternas, morrem com aquele a quem mataram, mas acima delas haverá outra morte maior, aquela que se ocupa do conjunto dos seres humanos desde o alvorecer da espécie, Há portanto uma hierarquia, Suponho que sim, E para os animais, desde o mais elementar protozoário à baleia azul, Também, E para os vegetais, deste o bacteriófito à sequóia gigante, esta citada antes em latim por causa do tamanho, Tanto quanto creio saber, o mesmo se passa com todos eles, Isto é, cada um com a sua morte própria, impessoal e intransmissível, Sim, E depois mais duas mortes gerais, uma para cada reino da natureza, Exacto, E acaba-se aí a distribuição hierárquica das competências delegadas por tânatos, perguntou o aprendiz de filósofo, Até onde a minha imaginação consegue chegar, ainda vejo uma outra morte, a última, a suprema, Qual, Aquela que haverá de destruir o universo, essa que realmente merece o nome de morte, embora quando isso suceder já não se encontre ninguém aí para pronunciá-lo, o resto de que temos estado a falar não passa de pormenores ínfimos, de insignificâncias, Portanto, a morte não é única, concluiu desnecessariamente o aprendiz de filósofo, É o que já estou cansado de te explicar, Quer dizer, uma morte, aquela que era nossa, suspendeu a actividade, as outras, as dos animais e dos vegetais, continuam a operar, são independentes, cada uma trabalhando no seu sector, Já estás convencido, Sim, Vai então e anuncia-o a toda a gente, disse o espírito que pairava sobre a água do aquário. E foi assim que a polémica começou.

José Saramago, in As intermitências da morte

domingo, 11 de setembro de 2011

Pessoas imortais, uma Pessoa: o Pessoa

Fotografia tirada na Casa Fernando Pessoa


Há Homens que não são feitos da mesma matéria que todos os outros. Não é de carne que são revestidos e o que lhes corre nas veias não é sangue. Os olhos são como balas capazes de perfurar todas as coisas, ultrapassam o espectro visível. Uma sensibilidade arrepiante.
Caminham dentre a multidão, moribundos numa orquestra nem sempre audível a quem os fita. Nutrem-se da vida que por eles passa, desfilando nas ruas solitariamente.
Diz-se que todo o Homem é mortal. Contudo, olho o fato sem forma com que me deparei e não me fica vazio. Ao invés, reside plenitude. Interrogo-me se haverão pessoas ditas vivas mais vivas do que Pessoa? Conseguem haver mortos mais vivos que desafiam leis, são Homens do não tempo. A sua casa são todos os lugares e a vida que tão delicadamente acontece em "agoras".

Ninguém me dirá quem sou, nem saberá quem fui

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

domingo, 28 de agosto de 2011

A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença.

Alexandre Herculano

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Como se morre de velhice

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Cecília Meireles

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O sono

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim -
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ter sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Álvaro de Campos

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Conveniencias de no usar de los ojos, de los oídos y de la lengua

Oír, ver y calar, remedio fuera
En tiempo que la vista y el oído
Y la lengua pudieran ser sentido
Y no delito que ofender pudiera.

Hoy, sordos de los remedios con la cera,
Golfo navegaré que (encanecido
De huesos, no de espumas) con bramido
Sepulta a quién oyó voz lisonjera.

Sin ser oído y sin oír, ociosos
Ojos y orejas, viviré olvidado
Del ceño de los hombres poderosos.

Si es deito saber quien ha pecado,
Los vicios escudriñen los curiosos:
Y viva yo ignorante y ignorado.

Francisco de Quevedo

Poeminha de homenagem à preguiça universal

Que nada é impossível
Não é verdade;
Todo o mundo faz nada
Com facilidade.

Millôr Fernandes

domingo, 21 de agosto de 2011

Porque o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!
Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.
Rixas, tumultos, lutas,
Bão me fazem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.
Passar o estio, o outono,
A poda, a cava e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...
Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé,
Irrompe, tumultua,
Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, grito...
Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturaram-se as maxilas...
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha

Os grandes indiferentes

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indiferentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos 
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, eles os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

Ricardo Reis 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A preguiça

De todas as paixões, a que nos é mais incógnita é a preguiça. É a mais ardente e a mais maligna de todas, ainda que a sua violência seja imperceptível e que os seus danos se escondam. Se observarmos com atenção o seu poder, notaremos que ela se torna sempre mestra dos nossos sentimentos, dos nossos interesses e dos nossos desejos. Ela é a demora que tem a força para fazer parar os maiores navios, é uma calmaria mais preguiçosa para as grandes empresas do eu do que os bancos de areia e do que as maiores tempestades. O repouso dado pela preguiça é uma sedução secreta da alma, que pára de repente as lutas mais inflamadas e as resoluções mais obstinadas. Enfim, para se dar uma verdadeira ideia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como que um estado de beatitude da alma, consolando-a das suas pedras e ocupando o lugar de todos os bens.

La Rochefoucauld, in «Reflexões»

Em que medida o homem activo é preguiçoso

Creio que cada um deve ter uma opinião própria sobre todas as coisas, acerca das quais são possíveis opiniões, porque ele mesmo é uma coisa singular, única, que ocupa uma posição nova, nunca vista, em relação a todas as outras coisas. Mas a preguiça, que jaz no fundo da alma do homem activo, impede-o de tirar água do seu próprio poço. Com a liberdade das opiniões passa-se o mesmo que com a saúde: ambas são individuais, nem de uma nem de outra se pode formular um conceito universalmente válido. Aquilo que um indivíduo necessita para a sua saúde já é motivo de doença para outro, e muitos caminhos e meios para se chegar à liberdade de espírito podem ser considerados por naturezas superiormente desenvolvidas como caminhos e meios que afastam da liberdade.

Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

O isolamento do momento é indiferença

Se examinarmos num determinado momento - no instante presente, separado do passado e do futuro - descobrimo-nos inocentes. Não podemos ser nesse instante mais do que aquilo que somoS: todo o desenvolvimento implica uma duração. Está na essência do mundo, nesse instante, que sejamos assim. Isolar assim um instante implica o perdão. Mas este isolamento é indiferença.

Simone weil, in 'A Gravidade e a Graça'

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Relatos biográficos de crianças normais

O pequeno John perguntou ao seu mestre: «Mestre, como poderei eu ser feliz conjugando a minha existência com a da Filosofia?». O mestre respondeu: «Pensa que ela não existe. Escolhe-te a Ti e mata-me se conseguires. Mas esquece de quem alguma vez fui e cega os olhos à Filosofia.»

A pequena Marie sofreu uma zanga geral do grupo de amigas com quem brincava à tarde no recreio depois de ter partido a boneca de Sophie. Quando não aguentava mais não ter amigas, perguntou à mãe, entre soluços desconsolados: «Mãe, o que fazer para ter as minhas amigas de volta?», ao que a mãe respondeu, aliviando-lhe as bochechas do sal líquido que  lhe escorria pelas faces rosadas: «Querida, finge que elas não existem! Arranja amigas novas ou brinca sozinha. Mas quando passares por elas, não olhes para elas!»

O pequeno Hans queria fazer um trabalho de grupo, mas os colegas tinham sempre outras coisas que fazer. Quando perguntou ao pai: «Papá, como vou fazer o trabalho? Tenho que o entregar amanhã, ou a professora vai ficar muito aborrecida...», o pai respondeu: «Faz sozinho! E nunca mais faças grupo com eles.»

Os habitantes do Morro do Matagato poderiam ter feito o mesmo, mas por alguma razão, Jorge Amado assim não decidiu. Não entendo a racionalidade de alguns humanos, incluindo esta que aqui está. Talvez seja melhor fingir que não existe, até que o constrangimento temporal me impeça de continuar fingindo que existe algo para além do agoiro trapalhão e monótono do túnel sem fim, revestido de abafadores acústicos.

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um hálito de medo embaciando o vidrado
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a própria voz do mar segue o risco de um disco...
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

David Mourão-Ferreira in «Tempestade de Verão»

domingo, 7 de agosto de 2011

Geração de Morfeu

Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, Luís Montalvor, Santa Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso foram alguns dos membros da geração de Orpheu, que decidiram reunir-se para dar uma bofetada no gosto público. O nome foi escolhido de forma inteligente e culta, já que Orpheu fora um músico grego da mitologia que se apaixonou pela deusa Eurídice, casando-se mais tarde com ela. Eurídice, arrastando uma invulgar beleza, conquistou inocentemente um apicultor chamado Aristeu. Ela, tentando escapar-lhe numa perseguição que ele orquestrou para a conseguir capturar, tropeçou numa cobra, que a mordeu e matou, tendo-a enviado para o mundo dos mortos, do qual Hades era deus supremo. Orpheu foi ao encontro de Hades e suplicou-lhe que lhe devolvesse a sua amada, e o desespero, ao som de uma lira, fez o deus dos mortos chorar lágrimas de ferro e prometeu trazer Eurídice de volta, mas com uma condição: Orpheu não podia entornar os seus olhos sobre a mulher até que a luz do Sol a cobrisse por completo - não podia olhar para trás. A geração de Orpheu não deveria olhar para trás, para quem os antecedesse e criticasse cegamente os seus propósitos (e estava implícito fazer reuniões regulares e trocar ideias, construir ideias, pelo que não o referenciaremos a não ser entre parêntesis). O resultado desta motivação foi a efervescência fecunda de ideias que todos hoje conhecemos, ainda que muitos a possam conhecer apenas pelo nome. Se a internet fosse um instrumento alcançável, porventura teriam formado um blog e poderiam publicar ainda mais textos e críticas do que numa revista. Teria sido uma mais-valia, não concordam?

Se decidirmos o nosso nome, irei propôr "Geração de Morfeu". Morfeu é o deus grego dos sonhos. Os sonhos não acontecem senão dentro de cada um, com as direcções que cada um escolhe, dizendo respeito a cada um individualmente. Geração de Morfeu seria um bom nome.

sábado, 6 de agosto de 2011

Memorial da quase-corte de D. João V

Era uma vez, nos claustros do ano 1707, um conjunto de músicos nobres que sonhava conseguir as partituras da corte de D. João V para formar uma orquestra de câmara. Como isso se anunciava um sonho objectivamente impossível, dado todas as proibições, escusas e dificuldades que a época em causa vestia, decidiram encontrar-se para ensaiar algumas passagens que bem conheciam de ouvido, dos festins no palácio real, e então esperar para ver o que dava. No entanto, no dia em marcaram o primeiro ensaio, um deles teve que ir à missa, e era o que tinha melhor ouvido. Na segunda data planeada, outro dos músicos teve que dar uma lição de cravo à Infanta Dona Francisca. Sem o baixo contínuo, como poderia fazer-se o ensaio? A viola da gamba ainda não conhecia a sua linha melódica porque ao ensaio anterior tinha faltado o músico-do-bom-ouvido. Pela terceira vez em que se marcou uma reunião, foram alguns; entre os outros, um foi visitar a família ao Norte e os outros tiveram um jantar com o rei. Sem violino e flauta, decidiu fazer-se um ensaio de naipe. Mas era o violinista o concertino, pelo que o andamento não acertou, nem o compasso tão pouco. Ao quarto ensaio ninguém podia ir porque todos tinham outra coisa para fazer e pouca vontade de sentirem os canais auditivos serem tão ofensivamente tratados por instrumentos preguiçosos e descompassados no tempo. Então os músicos acharam que era melhor esquecer a primeira parte do plano, a de se encontrarem para ensaiar algumas passagens que conheciam bem de ouvido, e optaram por esperar para ver o que dava, e foi a melhor solução. Ao fim de uns anos, alguns tiveram netos, outros tiveram sobrinhos e outros permaneceram sozinhos, vivendo com outros familiares. Mas todos acabaram por morrer. Nenhum deles descobriu o que os ensaios poderiam ter semeado.

Televisão digital e regulação de frequências

«Hey! Pst! Tu aí! Sim, tu, que esfregas os olhos, porque é que segues em frente (o que farás quando chegares ao cimo da rua)? O caminho está a ser turvo e torto, mas silenciosamente torto, um silêncio esférico, o mesmo que emite uma televisão desligada, avariada, irreversível, posta para sempre a um canto na cozinha, só num lugar mais escondido - o lugar visível, tomou-o uma nova televisão digital. Qual a razão de se manter a outra condenada? As pessoas talvez apreciem acumular elementos ou temam profundamente o gesto de retirar algo da vista. Por isso mantém o barco de borracha a flutuar num lago sem ondas onde a ausência de corrente marítima impede o movimento livre e enérgico do barco (agora fardo poluente). É por isso que há sempre uma divisão da casa votada ao armazenamento de materiais antigos que não podem ser mexidos. É por isso que há dúvidas que nunca se colocam, porque já se acomodaram. É por isso que há perguntas que nunca se fazem e relações que adormecem ao canto daquilo que não chegaram a ser, porque há relações que nunca começam.»

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ridículo de ser ridículo

Olá amigos,
Hoje é o meu dia de cair no ridículo e, como ainda tenho uns dias para o fazer, decidi: cair no ridículo (entendam, entendam... não estou a reflectir, não cheguemos a tanto). Ou talvez sim. Todos os dias, desde que acordo até acordar de novo, pesquiso em mim própria indícios de mim para tentar desenhar o mapa do tesouro. É assim há anos, mas todos os anos a folha aumenta de tamanho na razão do exponete que é o ano transacto. Mas têm-me envolvido o pensamento outras questões de natureza identitária distintas das anteriores, as quais eu estranho com uma leve sensação de nebulosidade óptica... Terei que dobrar a duração dos meus dias para que, desde que acordo até acordar de novo na segunda volta do meu primeiro dia, pesquise em nós indícios da nossa actividade para tentar desenhar um mapa do tesouro. Penso que seria menos difícil, mas, paradoxalmente, também impossível. Por isso não vou fazer mais do que agora para me manifestar sobre este tema, nestes pobres moldes. Poderei aceitá-lo como uma limitação minha e continuar em coma ou antes desligar as máquinas. Mas continuar em coma ou desligar as máquinas, é uma decisão que deve ser de todos, a menos que as energias do céu se unam para nos hacer un milagrito, plis!

Somos tão bem definidos de fronteiras, ou será que somos cera derretida e já seca? Eu sou vocês e como eu sou inactiva, vocês também o são? Ou sou-o em consequência de ser parte de algum de vocês que me incorpora? (Agora estou a reflectir, infelizmente). Poderá haver entre nós algo em comum? Somos nós quem o decide. Somos pacotes de cartão dispostos lado a lado numa garagem fechada e podemos ser a mobília de um castelo.

domingo, 26 de junho de 2011

Declamo Aqui
& Ali – Declamo A qui
Há consistência no que em si – não é nada
Não é nada
A poesia é coisa de Homens
É coisa em si, coisa no caos que em si não é nada
em si não é nada...
A poesia é coisa de caos, O poeta
o seu sentido em si não é nada
O Poema – Sem sentido em si não é nada, Em SI Não é nada.
Um reflexo desordenado do caos
Um reflexo sem sentido
Por ventura em si se encontra E POR
VENTURA em SI.
Em si poeta
Em si o sentido
Em si o caos
Não o reflexo ordenado o sentido...
O sem ti desordenado poeta
poeta
poeta poeta
o caos o sentido
Não aqui. Não.
Aqui é desordem esta ordem.

Por ventura - encontrar-me ali no poema se estou -
aqui no caos e em si
no poeta

.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Terça-Feira, 7 de junho de 2011

- Mexo nos meus armários e na papelada. O paciente já entrou. Continuo à procura de algo que posso procurar noutra altura. Sinto-me com um aspecto descontraído por ter este à vontade.

- Já melhorei, aliás, já estou bem, mas sofria dos seguintes sinais: – Tanta procura para acabar por fechar o armário, se não era importante porquê continuar a fazer-lo já depois de eu ter entrado. Esforço-me para demonstrar que sei a diferença entre um sinal e um sintoma. Contrariamente à palavra sintoma que tinha disponível para descrever os sintomas de que sofria, usei a palavra sinal, o nosso pensamento engana-nos. - tosse, espirros, rinorreia, inflam

- Ainda bem que já está melhor – Nunca ouvem o que eu digo à primeira – Mas quero saber os quais os seus sintomas.

- Sim, comecei por lhe dizer que já estou melhor – Ouviu o início do que eu estava a dizer e foi necessário para que pensasse que o resto já não valia a pena ouvir – e depois passei à descrição dos sinais de que sofria

- Sorrio, mas não sei porque sorrio. O melhor é sorrir e mexer aqui nestes papéis.

- Tosse, rinorreia, espirros, olhos inflamados, dificuldade em respirar – É melhor fornecer-lhe um diagnóstico completo, não vá ela esquecer-se de fazer perguntas essenciais – Praticamente todos os sintomas que são descritos pelos artigos de jornais e revistas – em que imprimem a cores e a alta definição o medicamento que irá resolver os sintomas, ao lado e ao longo de uma página inteira. Disse sinais em vez de dizer sintomas, queria dizer sintomas. Refiro os jornais e revistas para que se desperte na sua memória o catálogo de sinais e sintomas que decorou enquanto macaco aprendiz, não vá esquecer-se de nada importante – De há três anos para cá que tenho tido estes períodos que se têm estendido de um mês, para o dobro e para o dobro novamente. Este ano terei começado a sentir-me assim por volta de Fevereiro.

- E quando é que se começou a sentir melhor? - Falam e falam, a este ritmo terei que ficar até depois das sete. É útil o que diz, vou tomar nota.

- De há duas semanas para cá – Porque é que olho para cima quando pesquiso a minha memória? É melhor olhar para cima para que perceba que estou a ser preciso. Isso, escreva a data na folha.

- Portanto Maio

- Foi bom ter chovido entretanto, aproveito para sair à rua e respirar – Repare como sei que a chuva faz recolher o pólen ao solo.

- Mas portanto, só quando chove é que se sente bem de novo – Tenho muitos colegas que deixam escapar estes pormenores, com estes pormenores é que se fica a perceber o problema.

- Comecei a sentir-me bem antes de se ter iniciado este período de chuva – Já sabia que ia fazer esta pergunta. É melhor deixar isto bem claro e dizer-lo assim peremptoriamente, não se vá querer convencer de que ainda não estou bom. Dizer-lo peremptoriamente e com confiança vai ser o bastante para a convencer.

- Podia ser da chuva, as pessoas pensam que estão boas porque está a chover, mas depois as alergias regressam – Estou convencida de que melhorou antes da chuva. Anoto o período em que melhorou.

- Já estou melhor. - Ficou claro. Pergunta-me por Fevereiro, diz nomes entre dentes e amacia a garganta, parece focar com muita atenção um ponto nas lentes oculares, toma nota desses nomes.

- As árvores e as plantas que se polinizam em Fevereiro são... Sim, esta, e mais esta, vou escrevê-las. Hoje não arrumei a loiça.

- São as plantas que se polinizam nesta altura do ano? - São as plantas que se polinizam nesta altura do ano? Escreveu «cão» e «gato».

- E ácaros, bactérias, potenciais alergénicos – Este também. Estas calças são apertadas nas ancas e fazem-me suar pelas verilhas, tenho os glúteos apertados e sinto-me empoleirada num estofo sintético. Os anéis apertam-me os dedos – Onde vive? - Aquela, sim aquela também.

- Em B. - As árvores que existem em B. são as mesmas que existem por toda a cidade de L.

- Em B. - Mostro aprovação. Continuo a lembrar-me de árvores e de plantas.

- Espero. Porque não espreita simplesmente a lista do paciente anterior? Existirão assim tantas àrvores e plantas diferentes em L.? Quase não existem jardins, apenas alguns buracos neste tecido de alcatrão, betão, canalizações e fios eléctricos, aterros e pisos subterrâneos, apenas alguns buracos onde ainda se espreita a pele da terra, alguns buracos de onde ainda se erguem algumas árvores, atordoadas ainda pela realidade em que germinaram um dia. O que será ser uma árvore, o que será ser uma árvore numa fila de árvores ao longo de uma avenida de oito faixas ladeada por prédios de dez andares aturdidos por 100.000 veículos por dia de um lado, e ruído doméstico do outro? Uma espécie de vala de fumo e as árvores ali plantadas.

Sinto o cansaço das árvores quando corro pela cidade à noite, ouve-se ainda na noite recém nascida o zumbido do dia que passou, e quando o estrondo parece amainar, as árvores têm pouco tempo para se espreguiçarem e desentorpecerem os ramos e sacudirem as folhas, antes que chegue o fresco matinal, o retiro das estrelas e a rotação da terra, chegam já pesados autocarros carregados de tropegos ensonados. Ouve-se o atrito de alcatrão sobre alcatrão, pneus sobre o asfalto, o chiar dos travões, os tubos de escape inflamados, as luzes eléctricas. Tropeçam sobre os joelhos e dirigem-se em grupos para os locais de trabalho, em processo automático, alguns dizem umas piadas, outros engolem mais um dia, e depois chega outro autocarro. Antes que se recomecem os rasgões na avenida de oito faixas, vão sair em vagas intervaladas mais algumas centenas de trabalhadores. Mais um estranho dia para se ser árvore.


- Muito bem – Está tudo.

- Sorrio. Que faz agora? Procura mais papelada no armário? Não. O que será o que traz na mão? O Kit - alergologista? Vai ler o manual de instruções à minha frente.

- Agora vai estender os braços por favor – Diagnóstico. Marcas no braço do paciente. Desenroscar amostras. Uma amostra por cada marca. É insuportável o calor desta altura do ano, e agora com o céu encoberto nem se vê o sol, fica assim o céu, um véu cinzento e tecto de estufa. Não me sinto feliz. Quero apanhar ar.

- São extractos das plantas? - Esforço-me para encontrar uma palavra técnica, não quero parecer um ignorante.

- Sim. - Onde está aquela amostra?

- Em água? - Desenha-me a caneta 20 traços nos braços, pretende associar cada traço a cada amostra, é melhor recordar-me não vá ela perder a conta. Que faz? Arruma as amostras ao monte, não admira que leve tanto tempo a encontrar a que quer. Empurra as amostras para ver as que estão por debaixo delas. O que é que ela fazia antes de ser médica, vendia vernizes para as unhas numa feira ambulante? O que é que estas amostras têm? Pelo jeito comprou-as por encomenda num reclame de televisão.

- Não! - Que absurdo o que acabei de ouvir! – É um tipo de solvente, cada amostra terá o tipo de solvente próprio, até porque a água poderia estragar a amostra – Oscilo um pouco a cabeça em volta de um eixo no pescoço, um pouco para um lado, um pouco para outro. Que pergunta.

- Portanto experimenta amostra por amostra para ver qual delas irá provocar uma reacção alérgica. - Vejamos se não se esquece de nada.

- Sim – Ia jurar que sabia onde estava aquela amostra. Estas devem chegar.

- Mas o teste funciona assim, basta o contacto por via cutânea? - Fechou o kit. O primeiro gesto menos macarrónico: Enceta uma agulha esterilizada Fura-me a epiderme para que as amostras penetrem a pele. Se me abstrair da acção perfurante da agulha, quase não sinto dor. A atenção serve de enfoque, não devemos confundir o poder de enfoque com a realidade magnificada do facto observado. - E agora, devo esperar sentir-me inflamado e com dificuldades em respirar para ficar a saber que tenho alergia?

- Já vai ver, espere 15 minutos na sala de espera – Onde pûs aquele papel?

- Sinto uma estranha irritação nos antebraços, deve ser psicológico. Sento-me a ler, a irritação intensifica-se. Deve ser psicológico. «os princípios pedagógicos que orientam os sistemas os sistemas educativos […] têm vindo a privilegiar a indisciplina, a espontaneidade, a criação pessoal. Eu acho que esses princípios deram mal resultado.» Vejamos o que é que este tipo diz a seguir, «A meu ver, os pontos de partida estão errados, como considerar que as crianças têm uma curiosidade natural para aprender, para saber mais, estudar, esforçar-se, para se organizarem. Nada disto é verdade. Essas são coisas que se aprendem e que se treinam. Não se pode esperar que as pessoas tenham esse equilíbrio entre disciplina e rebeldia – não se ensina a rebeldia porque isso não se ensina a ninguém […] Tem de se ensinar a pensar; as pessoas, naturalmente, não sabem pensar» Se formos pela norma... Mas porque haveremos de querer ir pela norma? Que irritação. Arranhar a pele com as unhas. Não, não vou arranhar os antebraços, se arranhar a pele fico com a pele vermelha, não quero depois ouvir: «Está a ver como ficou todo inflamado!» Nem ela sabe se isto funciona. A comichão é psicológica «...as reacções alérgicas resultam de um «erro» de leitura dos sistema imunológico, que assume como inimigas substâncias consideradas banais...» Não emoldurou o diploma, tem-no ali crucificado no placar de cortiça ao lado da tabela de preços. Aprecio de certa forma o modo como expõe o o seu diploma - «Atendimento por ordem de chegada» - Outros emoldurariam a tabela de preços. Gostava que editassem um livro em formato de revista, gosto de folhear as folhas de uma revista num plano amplo e espaçoso de uma mesa secretária desanuviada. Chamaram o meu nome. Aquele outro tornou os olhos e as orelhas para a enfermeira, mais tarde fiquei a saber que o seu nome não soava sequer como o meu.

[...]

domingo, 22 de maio de 2011

Goetz, Franz, Conversa sobre a Humanidade - Moral Kantiana, Consequencialismo utilitário

I

Franz - Com certeza que se pretende unir todo o homem por uma mesma máxima, essa máxima terá que ser válida enquanto lei universal, em concordância com todo o homem que por ela escolhe reger as suas acções.

Goetz - Sim.

Franz - Mas todo o homem difere do próximo, iremos sempre encontrar máximas inconciliáveis, que uns arrogam justas e outros arrogam atrozes. Toda a história da humanidade demonstra precisamente a impossibilidade de uma tal máxima universal.

Goetz - A ciência ética, a Antropologia prática, demonstram, como diz, o modo como as coisas acontecem, o que por si não demonstra a impossibilidade de algo que não acontece. Vejamos que o que acontece diz respeito à natureza, e a natureza ou a realidade das coisas remete, pelo uso especulativo da razão, à necessidade absoluta de uma causa suprema, inalcançável ao entendimento.

Franz – A causalidade é uma lei da natureza, causa – efeito, todo o efeito tem uma causa.

Goetz - Todo o conhecimento se inicia com a experiência, o que não é o mesmo que dizer que todo o conhecimento deriva da experiência. As leis da física clássica têm aplicação e funcionam, mas não gozam do estatuto de leis absolutamente necessárias, a nível atómico estas leis do movimento deixam de funcionar e passam a aplicar-se leis da mecânica quântica, que por sua vez também não gozam do mesmo estatuto absoluto e necessário. Leis que tenham este carácter são fundamento de conhecimento a priori. A causalidade é conhecimento a priori pois que se verifica independentemente da experiência, mas não totalmente, pois que foi necessário que a maçã tivesse caído em cima de Newton para que este pensasse que todo o corpo extenso sofre o efeito da força da gravidade. Causa – efeito, mas eis que no conhecimento a priori nada pode ser atribuído aos objectos que o sujeito pensante não extraia de si mesmo, digamos que para que a experiência sensível se torne organizada.

Franz – «Absolutamente necessário», o carácter de que a lei moral deverá gozar, mas o que é absolutamente necessário para mim, pode não o ser para si.

Goetz - Eis porque se demonstra a unidade da razão prática com a razão especulativa num princípio comum – O homem pensa pelos mesmos princípios da razão.

Franz – Mas tem costumes diferentes.

Goetz - Se retirarmos aos corpos tudo o que de empírico os torna particulares, a côr, a temperatura, a forma, diremos que todos partilham algo em comum, como o espaço, portanto o espaço é absolutamente necessário. Pense analogamente em relação ao homem.

Franz – Todo o homem é racional.

Goetz - Todo o homem tem os mesmos princípios da razão. Em nome das suas leis, numa crítica à razão pura, temos conhecimento a priori de leis absolutamente necessárias na razão especulativa tanto como na razão prática, e pensamos que será fundado na razão e gozando portanto do mesmo carácter absolutamente necessário, o princípio supremo da moralidade.

Franz – Mas reafirmo que o homem tem costumes diferentes, e concordo que tudo esteja submetido a leis naturais, mas porque é que a causa suprema está fora dos limites do entendimento humano?

Goetz - Concordo que tudo esteja submetido a leis. O conceito de causalidade: a toda a causa é posto um efeito. Nós conhecemos as coisas pelo modo como estas nos afectam, ou seja, conhecemo-las enquanto fenómenos. O entendimento é uma actividade própria do homem enquanto sujeito, reúne na sua consciência as representações sensíveis (fenómenos) às quais submeteu às suas categorias como o espaço e o tempo, e também a causalidade é uma dessas categorias.

Franz – Não se pode conhecer a causalidade mas pode-se pensar que ela exista.

Goetz - O homem tem consciência de si no mundo sensível porque constata as suas acções como fenómenos, portanto efeitos da sua causalidade.

Franz – Portanto como o homem não pode conhecer a coisa em si, não pode conhecer a natureza da sua vontade. Mas é por isto mesmo que as máximas dos homens são inconciliáveis, cada um tenta fundar as suas máximas morais no confronto das experiências. Não podemos conhecer a causalidade.

Goetz - Mas podemos pensá-la.

Franz – Podemos pensar que existe.

Goetz - Pensaremos a causalidade do homem como a sua vontade.

Franz – A sua acção?

Goetz - A escolha da sua acção.

Franz – Portanto o homem terá liberdade de escolher a sua acção… Mas não esqueçamos que se ele não pode conhecer a causa, não pode agir livremente porque estará sempre determinado por algo que lhe é oculto. Como concordámos, tudo está submetido a leis naturais, podemos conhecer a realidade das coisas, mas não as coisas em si.

Goetz - Concordei que tudo está submetido a leis, mas não concordei com que tudo está submetido a leis naturais. O homem não está submetido somente a leis naturais. Partiremos da pretensão legítima de que a vontade humana é livre.

Franz – De que valeria a pena conversarmos senão acerca da liberdade? Conheço um probo senhor que assere frequentemente e com modéstia, «estou aqui para aprender». Claro está que a disposição para a dialética faz com que certas e tais modéstias não mais sejam que propósitos de má fé para disfarçar a fraqueza da vontade: ela sabe não encontrar fundamento suficiente para arrazoar as suas escolhas, e então que se refugia num determinismo assim que a ideia de liberdade se revela mais plausível.

Goetz - Ai já não «estará aqui para aprender».

Franz – Não, aí não. – Sorriu de volta.

Goetz - A dialética natural consiste precisamente nisso, numa resistência natural das inclinações do homem sobre a determinação objectiva da sua vontade, e a história da humanidade é fecunda em exemplos dessa fraqueza de vontade. Eu e o Senhor, lamentavelmente, seremos alvos dessa fraqueza também, é com grande artifício e sagacidade que nos ludibriamos a nós mesmos.

Franz – Partindo da pretensão legítima de que a vontade humana é livre.

Goetz - Quando o homem se pensa, considera-se como um ser racional, que o coloca portanto numa outra ordem de coisas e em relação com princípios determinantes de espécie totalmente diferente, portanto independentes de causas determinantes do mundo sensível.

Franz – Mas não fará o homem parte da natureza?

Goetz - Sim, faz parte da natureza. O que é que o leva a fazer a pergunta?

Franz – Como é que a sua vontade pode ser independente de causas determinantes do mundo sensível se faz parte do mundo sensível?

Goetz - O homem é um ser racional, e é necessário que se atribua liberdade como propriedade da sua vontade, pois é apenas sob a liberdade da sua vontade que ele pode agir. A vontade do ser racional é a razão prática, ou seja, a causalidade em relação aos seus objectos.

Franz – «A razão prática é a causalidade», então através da razão, o ser age livremente.

Goetz - A razão pura dar-nos-á os princípios ou as leis da nossa acção, através de representações das leis, através da razão prática.
Franz manteve-se imóvel durante uns minutos, fitando Goetz.

Goetz - Está a reflectir?

Franz – Pretende continuar a falar sozinho?

Agora foi a vez de Goetz se manter imóvel, fitando Franz.
Goetz - Perdão – disse. - Por vezes ficamos tão acostumados a conversar dentro da academia que incorremos no erro de pensar que estamos apenas a falar acerca de uma teoria de escola, que não pode ser dita sem ser pronunciada pelos termos exactos. Esclarecerei os termos para que os possamos utilizar de futuro.

Franz – Obrigado.

Goetz - Se pretendemos dizer que o homem é livre, a sua liberdade é a causalidade da sua vontade, pois que de outro modo a sua vontade seria determinada pela necessidade natural, portanto pelas leis da natureza. Fosse este o caso, o homem não seria livre. Mas o que é ser livre? A ideia de um ser absolutamente livre transcende o entendimento humano, e teremos de considerar o mundo inteligível como um conceito necessário que a razão precisa tomar fora dos fenómenos para se pensar a si mesma como prática.

Franz – Portanto o mundo inteligível é o ser racional como coisa em si mesma?

Goetz - Sim, o todo dos seres racionais como coisas em si mesmas.

Franz – Portanto as coisas em si dos mundos sensível e inteligível são inacessíveis?

Goetz - Representam o limite do entendimento humano. Se quisermos pensar um ser com racionalidade e com consciência da sua causalidade a respeito das suas acções, e portanto com vontade, temos de considerar a sua liberdade, a autonomia da sua vontade, pois que de outro modo, a sua vontade seria determinada não pela sua razão, mas pelos seus impulsos.

Franz – E tomamos tantas decisões por impulso…

Goetz - Por efeito da dialética natural e pela fraqueza da nossa vontade!

Franz – Apercebo-me de que está a ser dito que o homem é definido pelos seus impulsos e pela sua razão.

Goetz - Nós estamos a atentar a uma definição da vontade do homem porque estamos a atentar à especulação de uma máxima que possa ser válida como lei moral universal para que se possam conciliar as vontades de todos os homens. Se as vontades dos homens são absolutamente díspares umas das outras, a tarefa será inútil. Agora se encontrarmos algo nas vontades de todos os homens, tal que todo o homem, por ser homem, partilhe, talvez ai se possa fundar uma máxima moral universal.

Franz – Sim… O homem tem os mesmo princípios da razão. Mas passemos à investigação da vontade do homem. O homem é um animal racional, tem consciência das suas acções. Ora ter consciência das minhas acções é i) ou ser um mero espectador do modo como a minha mente interage com o mundo ou ii) ter livre arbítrio e portanto tomar parte das minhas acções.

Goetz - Compreendemos que nem que fosse pela vontade de continuarmos a nossa conversa, escolheríamos a segunda hipótese: a liberdade.

Franz – Concordo, ainda que pelo que já foi dito até agora, pergunto-me se o mundo inteligível, ou «a direcção do mundo inteligível», não será outro impulso da vontade do homem, que então se voltaria a determinar por uma única lei em vez de duas.

Goetz - O que é que define o homem?

Franz – A sua espécie: animal - racional. Mas não penso que devamos atender apenas ao «racional».

Goetz - Diria que toda a acção tem um fim?

Franz – Sim. Não um hedonismo ou um prazer de justa-medida num jardim de Epicuro, a felicidade é subjectiva, e se procurarmos o maior bem-estar para o maior número, teremos sempre o menor número, e o que é se faz com o «menor número» ou o que é que o menor número fará em relação ao maior?

Goetz - Qual será a teleologia então?

Franz – Colocaram-me o seguinte caso noutro dia: «Se estivesses a bordo da carruagem piloto do metropolitano, e o metropolitano estivesse programado para não parar a não ser na sua estação de chegada, e a única coisa que pudesses fazer fosse escolher uma de duas linhas, qual escolhias sabendo que numa delas estariam 5 operários que não reparariam na chegada da carruagem a tempo, e que portanto iriam perder a vida, e que na outra linha estaria apenas 1, que iria também perder a vida caso eu escolhesse a linha onde ele estava. Qual seria a tua decisão?»
Respondi que escolheria a segunda hipótese, atropelar 1 em vez de 5. Algum tempo depois, voltei a pensar no caso e a analisar a minha escolha e decompus o problema da seguinte forma:

O único factor pelo qual me guiei foi o factor quantidade. Ora a quantidade por si só não tem qualquer significado, pois que um aluno prefere ter 1 professor que saiba falar sobre filosofia do que 10 que nada mais façam do que reproduzir na íntegra ideias de outros. Para justificar a minha escolha teria de referir o factor qualidade, mas eu não tinha acesso a esse dado.
Pensei depois que existiria uma outra condição: A morte. A morte de 5 é pior que a morte de 1, mas rapidamente me apercebi que a escolha continuava a ter sido feita com base na quantidade, que em si não representa nada. Apercebi-me de que justificava a minha escolha com algo vazio.

Daí inferi que mesmo que soubesse as qualidades de cada um dos operários, elas seriam por sua vez subjectivas, a inteligência de um homem não especifica para o que é que ele a vai utilizar; a bondade de outro homem não especifica em que é que ela vai resultar, e então apercebi-me de que uma vez que as consequências das nossas acções estão fora do nosso poder, não podemos fundamentar a nossa escolha no resultado da nossa acção, porque o resultado não é necessariamente o fim que pretendi alcançar.

Goetz - E o que é que sugere?

Franz – Tenho pensado sobre isso.

Goetz - Se o resultado da nossa acção é incerto, o valor da nossa acção não deverá depender do seu resultado, mas talvez se depender da acção como fim em si, talvez aí tenha valor.

Franz – O que pretendes dizer com isso?

Goetz - Que se uma acção tiver valor moral em si mesma, porque é este o assunto que estamos a tratar: Se procuramos uma máxima que se seja válida como lei moral universal, procuramos uma conduta universal, e então uma acção com valor moral é uma acção segundo essa lei moral universal – O seu valor não pode depender do resultado da minha acção, dependerá do seu valor intrínseco.

Franz – Mas donde advém o valor intrínseco da acção?

Goetz - Da ideia de boa vontade. Dizias que o homem é definido pela sua razão e pelos seus impulsos. Iremos substituir a palavra impulsos por inclinações. Ora as inclinações são como vontades que se querem concretizar ou satisfazer. Como já vimos, cada homem terá as suas inclinações e procurará satisfazê-las na medida em que procura ser feliz. A felicidade é portanto a satisfação destas inclinações, e diferenciando de grosso modo entre hedonistas e perfeccionistas, uns procuram os prazeres sensíveis e ausência de dor, outros a presença de bens com valor intrínseco como o conhecimento, a amizade, a apreciação estética… É fácil de ilustrar um cenário em que diferenças menos díspares que estas contribuíssem para que os homens deixassem de conseguir viver em sociedade. Como vimos, o valor moral da acção não poderá ser sustentado por um fim subjectivo uma vez que o valor moral ou motivo pelo qual eu agi não pode ser avaliado pelo resultado da minha acção. A felicidade é um bem, mas um bem subjectivo.

Franz – Mas por contraste, existirá algo «objectivamente bom», ou seja, algum móbil que garanta que a minha acção tenha valor moral?

Goetz - Consegue pensar em algum?

Franz – Todo o homem pretende.

Goetz - Algo?

Franz – Todo o homem vive em sociedade, e todo o homem que vive em sociedade, a pretender algo em comum, terá que acordar com esse algo, como por exemplo a vida. Todo o homem é um ser ordenado em função de um fim que é a vida. Se o homem respeitasse o direito à vida do outro, poderiam todos juntos viver de acordo com a mesma lei moral, mas o que é mesmo viver? Nem todos teríamos a força de perder a audição e compor ainda uma nona sinfonia. Creio que nenhum de nós abdicaria do seu bem-estar.

Goetz - Portanto considera que o bem-estar ou a felicidade seriam em si a máxima que se elevasse a lei moral.

Franz – Se procurássemos o maior bem-estar para o maior número possível, isto porque a história da humanidade nos mostra que é impossível que seja de outra forma, mas de que forma é que tal ideia pode ter a pretensão, ainda que bem intencionada, de resolver o assunto? Sei que as inclinações toldam a razão – a dialética natural, como disse – todo o objecto da inclinação é contingente e subjectivo na medida em que terei sempre que satisfazer as inclinações com o uso da razão, para que pela sobreposição das inclinações, umas sobre as outras, não sofra eu próprio com a minha procura subjectiva pelo meu bem-estar. Mais facilmente argumentaria que deveríamos acordar num espectro de valores superiores, aos quais apelaríamos se valores inferiores entrassem em conflito, mas não será isto o mesmo que dizer que o que é um valor superior para um homem, pode não o ser para outro homem?

Se eu considero determinado fim prático como a maior felicidade para o maior número como fim da lei moral, sou forçado a admitir que todo o outro que não se rege pela mesma lei moral, não é abrangido pela mesma e portanto também ele será meio sem ser fim. Ora de que modo é que este consequencialismo se arroga como lei moral universal se o fim iria sempre justificar o meio?

Goetz - Prestei particular atenção à boa intenção da ideia, «de que forma é que tal ideia pode ter a pretensão, ainda que bem intencionada, de resolver o assunto?» Já vimos que o valor moral da nossa acção não pode depender do efeito da nossa acção, mas sabemos também que qualquer acção tem um objecto. Se o objecto da nossa acção for o somente meio pelo qual alcançamos o fim moral, e o fim moral não for uma obrigação, um dever ou algo absolutamente necessário, então estamos determinados a falhar a verificação que exige a universalidade da lei moral. Ora um fim que não seja absolutamente necessário não é válido enquanto obrigação, é contingente, desistimos do meio se desistimos do objecto da acção, assim como escolhemos um meio em função de novo objecto da nossa acção.
Qualquer teoria utilitarista acenta no maior bem-estar para o maior número possível de indivíduos, devendo cada indivíduo agir sem egoísmo, não diferenciando o Eu do bem-estar de Todos, não se devendo considerar a utilidade com a imediatez da satisfação, a moralidade do acto é ponderada com racionalidade.

Franz – Mas não será isso o maior número possível, o domínio abrangido pela lei moral universal?

Goetz - A felicidade ou o bem-estar têm de ser conceitos cuidadosamente depurados, até lá são demasiadamente abstractos e subjectivos para podermos pretender fundar uma lei moral que os tenha como objecto. Vejamos novamente que tudo é governado por leis. Temos dito que existirão acções com valor intrínseco

Franz – Que iríamos analisar através do conceito de boa vontade.

Goetz - Correcto. Se tudo é governado por leis, a vontade é a causalidade dos seres racionais que têm que se considerar como livres

Franz – Por um acto de boa-fé.

Goetz - Regressaremos a esse aspecto. Todo o ser racional é livre, ou tem que se considerar livre, sendo a sua liberdade, propriedade da sua vontade. Para que o ser seja livre a sua causalidade tem que ser independente das leis da natureza, que são por sua vez causalidade de todos os seres irracionais. Esta definição de liberdade é negativa porque não podemos conhecer a sua essência apesar de a podermos pensar. Mas desta definição emerge um conceito positivo, pela causalidade todo a causa tem que produzir um efeito, e se a nossa liberdade produz um efeito no mundo, então estamos sujeitos a leis imutáveis. Vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa, e assim pretendo introduzir a ideia de autonomia da vontade, «A vontade é em todas as acções, lei para si mesma»

Franz – Seria uma heteronomia se fosse determinada pelas leis da natureza...

Goetz - E consequentemente, a liberdade seria um absurdo.

Franz – Portanto, a vontade é causa de si mesma.

Goetz - Sim.

Franz – E as inclinações?

Goetz - Vejamos que a vontade é concebida como a faculdade de se determinar a si mesma a agir em conformidade com a representação de certas leis, portanto razão prática, e que sendo de constituição subjectiva, sempre sobre a influência de móbiles, é objectivo da razão prática criar uma boa vontade. Somos dotados de uma vontade imperfeita porque não agimos necessariamente pela representação das leis morais. Se no campo teórico temos de admitir o contacto com a realidade incognoscível das coisas, no campo prático teremos que admitir a autonomia dos princípios da razão.

Franz – Portanto se não posso fundar a lei moral em nenhuma necessidade natural como a felicidade, porque esta é subjectiva e falha a priori o teste da validade enquanto lei universal, talvez possa fundar o princípio universal nos princípios da razão, universais a todo o homem...

Goetz - É o que pretedemos mostrar.


II

Franz – Portanto, o que será uma vontade perfeitamente boa?

Goetz - Uma vontade que esteja igualmente submetida a leis objectivas, mas que não esteja obrigada por essas leis porque ela só poderá ser determinada pela representação do bem.

Franz – Claramente que o homem não será uma vontade perfeitamente boa, mas fundando a lei moral nos princípios da razão, como é que agimos por esses princípios?

Goetz - O princípio supremo da moralidade tem um carácter a priori porque tem que ser necessário e universal, pelo que o homem não funda a lei, a lei existe por si, tal como a boa vontade, portanto agindo pelos princípios da razão, agiremos moralmente. Devido à constituição subjectiva da nossa vontade, somos obrigados a agir pela representação das leis expressas através do conceito de dever, portanto de imperativos. Eu e o Senhor somos ambos homens, mas somos homens diferentes, pelo que a boa vontade é determinada objectivamente pelo princípio formal que não se relaciona com a matéria da acção e com o que dela deve resultar, mas com a forma e o princípio que dela mesma deriva – a autonomia, a vontade como legisladora – subjectivamente, é determinada pelo respeito que temos pela lei moral, um sentimento que se produz por si mesmo através de um conceito da razão, e assim é especificamente distinto de todos os sentimentos de outro género que se podem reportar à inclinação ou ao medo. Este sentimento de respeito é a consciência da subordinação da vontade à lei moral.

Franz – Mas eu sei que a minha vontade é determinada pela razão na medida em que me aprofundo em deliberações racionais, e sei que por vezes «sinto que deveria agir de tal maneira», mas não consigo tomar essa deliberação moral racionalmente.

Goetz - Todos os imperativos são analíticos porque são princípios da razão, e nós: seres racionais - ou seja, se queremos um Querer, queremos um Meio, pelo que teremos infindáveis imperativos hipotéticos para cada fim que pretendamos alcançar, se nos referimos a qualquer fim prático como «o escrever um trabalho para a cadeira de Ética», recorremos aos imperativos hipotéticos de destreza, se nos referimos ao fim específico da felicidade, então fá-lo-emos através de imperativos hipotéticos de prudência.

Franz – Portanto os mesmos imperativos dos quais todo o homem se serve quando pretende fundar uma lei moral no próprio conceito de felicidade.

Goetz - Mas vejamos que os fins dos imperativos hipotéticos não gozam do carácter absolutamente necessário, pelo que podemos prescindir dos meios, prescindindo dos fins.

Franz – Compreendo. Se o próprio objecto da acção é subjectivo, essa acção não tem necessariamente valor moral. Mas todo o fim da acção é subjectivo porque todo o fim da acção não é nada em si. Posso considerar que ajo por bem, e como vimos, não posso esperar saber que agi bem, mediante o efeito da minha acção portanto o meu acto terá que ter um género de valor intrínseco... Mas é demasiado abstracto agir por objectos que tenham valor intrínseco.

Goetz - Toda a lei prática representa uma acção possível como boa, quer uma acção com um fim específico, quer uma acção boa em si mesma. O imperativo diz-me qual das acções é boa, representando a regra prática em relação com a minha vontade. Portanto se o fim do nosso imperativo for contingente, não poderemos encontrar ai o nosso princípio moral.

Franz – Não.

Goetz - Podemos diferenciar a máxima da lei do seguinte modo: a primeira é o princípio pelo qual o sujeito age, a segunda o princípio pelo qual o sujeito deve agir.

Franz – Um pouco como a diferença entre a ordem pela qual as coisas acontecem e devem acontecer.

Goetz - Precisamente por essa ordem. Ora se os imperativos se apresentam como meios para efeitos possíveis, mas é da razão que se deriva a lei prática, o princípio supremo da moralidade será um imperativo, e um imperativo categórico, pois que se nos aplica incondicionalmente. Ele ordena que se aja incondicionalmente perante o próprio princípio como fim em si.

Franz – E em que é que isso se traduz?

Goetz - Todo o ser racional não é necessariamente determinado pela relação da lei objectiva com a sua vontade. A lei objectiva é boa em si, e só agindo pela representação da lei poderemos agir moralmente, e então que esta se possa representar por uma máxima que tenha como fim algo que tenha valor intrínseco: A boa vontade, portanto o ser racional, que enquanto conceito que se aplica universalmente, aplica-se a todo o ser racional, e portanto a todo o homem, a toda a humanidade., «age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio»

Franz – Extende-se assim a todo o homem porque considera todo o homem como fim em si na medida em que todo o homem pode escolher ser determinado pela lei moral e portanto livre.

Goetz - Vamos considerar três fórmulas para o imperativo categórico, a da universalidade que tem vindo a ser discutida, «age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal», a da humanidade, já referida, e a do reino dos fins, age segundo máximas de um membro universalmente legislador em ordem a um reino dos fins somente possível»

Franz – Essas fórmulas parecem máximas, portanto princípios subjectivos da acção...

Goetz - E são máximas, princípios subjectivos na medida em que são princípios pelos quais um sujeito realiza um acto particular, especificando a acção a realizar em função de determinado fim. Ora estas máximas são objectivas se forem moralmente aceitáveis, em virtude de serem válidas como leis universais e «poderem servir para a nossas própria legislação universal».

Franz – Toda a acção terá que ter um objecto, um fim, e já vimos que esse fim terá de ter valor em si, como a boa vontade, a humanidade portanto.

Goetz - Positivamente, temos de tratar toda a pessoa como fim, negativamente, temos de tratar toda a pessoa como meio e fim em simultâneo, pois que nada me impede de disfrutar das suas perguntas para que eu próprio e o senhor possamos compreender melhor a lei moral de Immanuel Kant.

Franz – Uma ética que acente no bem-estar é permissível que o outro seja tratado como meio sem o ser como fim....

Goetz - Porque não tem o carácter universal a priori. Analogamente, servem-se dos imperativos de destreza ou de prudência para fundarem uma ética.

Franz – A motivação para um imperativo de destreza é simples de conceber, se quero um fim, quero um meio, a analiticidade da proposição que referiu, o que não impede que o fim que pretenda necessite em si de ser discernido, pois que a conceptualização do nosso outro na nossa ciência ética fosse por exemplo, um especismo, então o nosso fim não seria por sua vez objectivamente determinado pela lei moral.

Goetz - E perguntamo-nos qual possa ser a motivação para um imperativo categórico que se apresente como obrigação, como fim em si, como dever perfeito ou imperfeito.

Franz – Dever perfeito ou imperfeito?

Goetz - Um dever perfeito será restritivo, como o nunca agir por egoísmo. Um dever imperfeito será uma prerrogativa, como a complacência para com os outros. Estes últimos não são necessários assim como não são suficientes, pois podemos em qualquer altura auxiliar quem precise de ajuda, não querendo com isso dizer que pretendmos fazer disso um fim.

Franz – Os nossos imperativos têm portanto dois tipos de fins, os objectivos e os subjectivos, dentro de estes últimos contam-se todos aqueles que são relativos, não absolutamente necessários como as leis morais que se expressam por estas três fórmulas.

Goetz - A humanidade é um fim objectivo, a complacência não.

Franz – Se violarmos um fim imperfeito, tratamos o outro somente como fim.

Goetz - Bem como que se violarmos um dever perfeito, tratamos o outro somente como meio. A fórmula do reino dos fins tem capital importância. Quando dizemos que a vontade não está apenas submetida à lei moral, que é também legisladora universal, referimo-nos ao princípio da autonomia. É através deste princípio que os seres racionais têm valor absoluto e portanto a humanidade também.

A autonomia sustenta-se no facto de que não formos legisladores da lei prática a que estamos submetidos, teremos sempre que pressupor um qualquer interesse ou inclinação para obedecermos a esse valor, perdendo-se completamente o carácter objectivo, formal e a priori da lei moral

Franz – Perdendo-se o conceito de liberdade.

Goetz - O Reino dos Fins é uma comunidade de seres racionais, portanto o valor intrínseco da humanidade bem como o é o valor intrínseco da boa vontade para um ser racional. Quando referimos a liberdade a que o ser racional se candidata, defenimo-la negativamente porque não podemos conhecer a sua essência, mas positivamente porque sabemos que a nossa liberdade tem efeito no mundo natural, e então que como tudo é gerido por leis, a nossa liberdade terá de estar submetida a leis morais, nós teremos que estar submetidos a leis morais, ora como para sermos livres, não podemos admitir que o somos por estarmos submetidos a leis pelas quais tenhamos que ter uma inclinação, teremos que ser a causalidade dessas próprias leis, portanto uma vontade autónoma.

Franz – A liberdade é a propriedade da vontade de ser lei para si mesma.

Goetz - E essa lei será o Imperativo Categórico - tal e qual como um estado livre. Um estado livre não pode ser um estado sem leis, ora estas leis da liberdade terão que ser as leis das vontades dos seus cidadãos. A constituição deste estado emana dos seus cidadãos assim como a lei moral emana da boa vontade como causa de si própria.

Franz – Somos livres porque as nossas acções encadeiam efeitos, de outro modo não seríamos autores das nossas acções, tal como foi dito, «a deliberação racional perderia todo o sentido», mas tal como «a coisa em si» permanece incognoscível, porque temos de admitir que tudo o que conhecemos de abolutamente necessário, e portanto de a priori, é o que o sujeito nelas coloca e de si mesmo extrai; então também não podemos dizer que conhecemos o eu livre, numénico.

Goetz - Mas podemos pensar que enquanto membro do mundo inteligível, é livre, e isso bastará por agora para demonstrar que sendo necessário que sejamos autores das nossas acções, temos que ser legisladores e portanto causalidade da nossa escolha, e que esta terá valor moral se for em ordem a um reino dos fins, tendo-me a mim e ao outro simultaneamente como fim e meio.

Franz – Cumpre-se a exigência de universalidade, mas todo o outro que não esteja incluído no domínio do ser racional, poderá ser utilizado somente como meio.

Goetz - A diferença entre pessoa e coisa reside precisamente na determinação pela vontade. Um ser racional é determinado pela sua vontade e é portanto considerado enquanto pessoa. Tudo o mais que seja somente determinado pela natureza, terá o carácter de coisa, que possui um valor relativo, servindo apenas como meio. Teremos obrigações indirectas para seres irracionais, como os animais por exemplo. Na constituição subjectiva da nossa vontade, tal como devemos assegurar a nossa felicidade pelo intermédio da prudência (pois que de outro modo, a própria infelicidade constituiria um obstáculo à determinação objectiva) devemos ter em atenção que a crueldade para com os animais predispõe a crueldade para outros seres, como os seres racionais, mas esta será uma conversa que terá que ser deixada para outro dia.

sábado, 21 de maio de 2011

Aplauso - Cultura em revista

"...



A não-geração do século 21
10/10/2008


Manoela Sawitzki e Luisa Kiefer

Enquanto punks, unders, roqueiros e botequeiros das primeiras gerações a usar all star se acotovelavam na Oswaldo Aranha, entre o bar João e o Escaler, em busca de álcool barato e otras cositas más, eles, decerto, davam os primeiros passos no mundo das letras. Ainda não tinham fôlego para bons poemas e vasta prosa. Mas alguns já conseguiam juntar “a” com “u” e concluir que ali havia alguma coisa.

Foram ninados no berço nem tão esplêndido da década de 80. Eram jovens demais para saber que resíduos da ditadura militar ainda atravancavam muitas gargantas. Seus pais, tios, vizinhos, irmãos mais velhos queriam Diretas Já, descobriam o HIV, preocupavam-se com a Guerra Fria e a ameaça atômica. Agora, vinte e tantos anos depois, é a sua vez de fazer história – contando histórias, criando vozes.

Antônio Xerxenesky, Bernardo Moraes, Carol Bensimon, Diego Grando, Jorge Bucksdricker e Telma Scherer são escritores. Três prosadores e três poetas. Todos gaúchos com mais de 22 e menos de 30 anos. São jovens, não há dúvida, e, segundo dizem, apesar de cronologicamente pertencerem a uma geração, não têm em sua literatura traços que os definam como uma unidade ou corrente literária. Também não pretendem promover nenhuma revolução estilística, como os modernistas do início do século passado. Tampouco são frutos da vertente blogueira dos anos 2000 (no caso deles, internet é mais conseqüência do que causa) ou da turma de Daniel Galera, Paulo Scott e Daniel Pellizzari.

Possivelmente essa independência seja sintoma de uma época. Difícil etiquetá-los e reuni-los num mesmo saco – a não ser pelo fato de todos estarem estreando no universo literário, alguns no primeiro, outros no segundo livro. Dos seis, três publicados pela mesma casa, batizada com o interessante nome de Não Editora.

Seus livros abordam temas do cotidiano, relações familiares, a passagem para a vida adulta, os conflitos da existência. Enfim, questões que movem escritores desde que eles surgiram no planeta. E cada um o faz a sua maneira, como todo autor deve fazer. Aliás, embora nenhum deles negue o valor de um bom e velho livro impresso e disponível na prateleira, há variações em seus modus operandi que vão dos poemas estampados em balões e cubos de Diego Grando, à junção de poesia e artes plásticas de Jorge Bucksdricker e às perfomances poéticas de Telma Scherer.

Minimundo (IEL, 2006), de Bernardo Moraes, carrega nas doses de humor e ironia em contos curtíssimos. Já Carol Bensimon, com Pó de Parede (Não Editora, 2008), aposta em pequenas histórias, que ela prefere não chamar de contos, e que exploram de maneira mais profunda o ser e estar no mundo. Areia nos dentes (Não Editora, 2008), de Antônio Xerxenesky, leva o leitor até um faroeste de diálogos rápidos e capítulos curtos, com uma escrita que flui e intriga. Há mistério no ar.

Telma Scherer, em Rumor da Casa (7Letras, 2008), constrói seus versos dentro da casa onde vó Elza tricotava, por que é ali, naquela casa, que a sua história e literatura nasce, vive e cresce. Como os editores apresentam: “se começa com silêncio, o livro termina com som”. No Carrossel Desencantado (Não Editora, 2008) de Diego Grando, é possível encantar-se, rodopiar, girar e pedir para rodar mais uma vez. Jorge Bucksdricker mostra em Solstícios (IEL, 2005) uma poesia altamente pessoal e subjetiva, com completo domínio rítmico e melódico.
Leia a íntegra da reportagem na edição impressa de APLAUSO 95..."

em APLAUSO - Cultura em revista, http://www.aplauso.com.br/site/portal/anteriores.asp?campo=1136&secao_id=81.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vidro baço



De dentro da minha casa, avisto através de uma janela uma realidade que não se vê. Sentada nesta cadeira, de pernas e braços cruzados, à espera que o mistério se desvenda por si só. Eu sei que isso não acontecerá, por isso, acendo um cigarro na esperança de que se incendeie a descoberta na minha mente.
Há um vidro baço que separa esta realidade. Posso tocá-lo: é frio, duro e macio. É baço, frágil, quebradiço e fino como uma folha. Não consigo ver o que acontece do outro lado, no entanto, sonho. Sonho muitas vezes. Todos os dias. Sonho encostada àquela superfície. Sonho sobre o nada e o tudo que se passa na minha mente, talvez apenas aí. Exprimo toda a raiva de ser cega àquela realidade contra o vidro que me separa e me mantém confinada a este lado, sentada todo o dia, a imaginar. Perco-me entre realidades criadas na mente e a trazida pelos sentidos, talvez também ela fictícia. Bato várias vezes no vidro com força na expectativa de obter uma resposta . Encosto a face junto àquela superfície fria: não oiço nada do outro lado. Talvez não exista ninguém para me ouvir. Escorro pelo vidro abaixo, não porque existe gravidade, mas porque a desilusão de não conhecer deixa-me à mercê dum cansaço. Este vidro,como todos os outros, parte-se e desfaz-se em cacos. É uma leve película opaca cheia de força. Não o destruo e contínuo a cismar sobre o que existe do outro lado.
- Porque é que não o parto?
O desconhecido tem um fascínio inato: uma névoa escura que nos atormenta, um medo de cair no limbo e de permanecer na ignorância eternamente. Ainda assim, existe o prazer da possibilidade de ser desvendado e de trazer a descoberta. É o poder da revelação em eminência.
Trata-se de um jogo onde se fazem apostas (e batotas), onde brincamos e criamos existências que não existem. Atiram-se dados viciados. Atiram-se dados em branco para o nada.
- Quantos vidros ainda temos de partir para fingirmos conhecer a(s) realidade(s)?





domingo, 8 de maio de 2011

6:00 a.m.

Quando tenho sono quero dormir - acordei antes das 6 com a necessidade de encontrar um ponto sólido e perguntei-me o que é que determina essa 'vontade', bem como a 'de dormir' (e portanto de qualquer outra vontade),



Há leis que não são leis, nem tendência, apenas descrições de sistemas que no fundo não são sistemas, apenas descrição da ocorrência de 'factos', que não têm interligação mas que eu estipulei que têm,

Sou eu que estou a dar significado ao mundo como Quero dar e neste instante sinto que estou a ser o resultado das minhas divagações mais ou menos boas, mais ou menos bem.

'IDEALMENTE' Não estou limitado pela tendência de considerar a realidade como física. Não existem tendências nem nada se autodetermina.

«Deêm-me um ponto sólido e...», disse Arquimedes.

A busca de um ponto sólido 'tem de me dar estabilidade', porque dá - estou sempre a Ser com preceitos - Qual o meu méthodos? Busca de pontos sólidos.

'IDEALMENTE diferente de REALMENTE' A realidade, as coisas parecem ter leis, mas essas leis não são necessárias, nem apresentam resistência à sua verificação - existem quando associamos determinadas ideias a outras determinadas ideias.

Se me é possível transcendê-las - Não me sentir terrivelmente mal (com uma situação do foro pessoal que nada interessa a quem ler isto) - Porque hei-de acreditar que me sinto mal por (IDEM)


É difícil (fácil) identificar tudo o que estou a pensar - Tudo pelo que estou a pensar porque penso muitas vezes sob sistemas que são a causa desse prisma - mas depois não podem ser a causa porque de certa forma 'eu é que os juntei'

quando as coisas se juntam, fazem um sistema, e eu quero ou penso por esse prisma

- São eles que se movem e se determinam como prismas ou eu também os posso determinar?

Cada prisma dá-me uma 'visão da realidade', mas não é uma visão de como funciona, antes uma derivação impossível -

De leis

I feel like I'm waking up (it's 6.ooam and I just woike up and wrote this) - (nota para mim mesmo quando relesse o que tinha escrito, coisa que nunca faço - deixo sempre notas para mim mesmo que nunca leio - escrevemos palavras que nunca são lidas, mas escrevemo-las, e elas têm o seu sentido, mas só têm sentido se alguém as ler, e quando as lê, a sua interpretação) - Parar, senão começo aqui outro texto) - and as I do, I ask myself: but am I not already awake? 'it feels that as I feel' 'the sun arousing my senses' that I am waking up - but all that arousing seems to e my choice of what I chose to believe in

I was told I am a body with a mind, and I was bred to believe it in such austherity that all the more seems strange - further - all the more seems implausible

but it is plausible

for the system I was bred in fails to give any account on what I am


Estou a escrever porque estou a 'fazer um raciocínio' e agora paro porque sei que vou derivar algo, mas antes desse derivar, sei que estou a observar o movimento de um raciocínio, que não verdadeiramente 'meu' porque ele não existe verdadeiramente (e porque parece que estou a observar a minha inteligência a funcionar - sob princípios e ou preceitos)

Ele (o meu raciocínio) é a junção de 'coisas' que juntas fazem um sistema - e então um prisma - um raciocínio - o qual comparo à realidade e vejo se esta não se explica por ele

e nunca se explica porque quando se explica - pergunto-me: E se...


E nesse 'E se' crio uma possibilidade que passa a ser viável - e tão verdadeira quanto a do prisma pela qual 'via a realidade'

A verdade é que são ambos possíveis e nenhuma explica a realidade, ou seja, não existem por si.

A realidade parece um conjunto de elementos (metafísicos) - uma força move esses elementos e eu, - (por princípios a priori que me são desconhecidos, porque ao identificar os meus, pondo a possibilidade de outros, e assim me 'livro' dos anteriores, mas para isso terei de o fazer através de outros princípios) - 'identifico-os como um conjunto com determinada forma'

que não explica a realidade porque pondo a possibilidade dos elementos (metafísicos) estarem juntos de outro modo, sei simplesmente que eu também os passo a organizar, mas que essa organização não é nada em si,

(o meu despertador tocou agora, será que agora é que acordei?)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Imperativo Moral Irredutível (Imperativo Categórico) - Introdução

Introdução,

A Filosofia natural (Física) tem como objecto as leis da natureza, a Filosofia moral (Ética) tem como objecto as leis da vontade do homem. As leis da natureza descrevem como tudo acontece, as leis da vontade do homem ditam como tudo deve acontecer. Ambas estas ciências têm parte empírica, respectivamente, Teoria da natureza e Antropologia prática, e parte racional, Metafísica da Natureza e Metafísica dos Costumes (ou Moral).

A dicotomia das ciências em parte empírica e racional, advém da necessidade de (depurando dos elementos empíricos) investigar de quanto é capaz a razão pura no conhecimento dos seus objectos, e de investigar a fonte dos seus princípios a priori, isto é, dos princípios pelos quais o entendimento conhece os seus objectos totalmente a priori. Se a Filosofia empírica se ocupa da Teoria da natureza e da Antropologia prática, a Filosofia pura, especificamente a Metafísica, ocupa-se dos objectos do entendimento (A Lógica ocupa-se das leis do pensar em geral, sendo uma ciência totalmente a priori, não tendo portanto qualquer parte empírica)

Vou deter-me sobre as Leis da vontade do homem. Procuro buscar e fixar o princípio supremo da moralidade, princípio esse, a priori, objecto do conhecimento racional, portanto através de uma Metafísica dos costumes. Remete à Antropologia a parte empírica da ciência Ética, e considerando que um princípio moral tenha que ter em si uma necessidade absoluta (para que não tenha um valor meramente contingente), este nunca pode ser fundado em qualquer móbil que seja de certa medida universal, por melhor e mais digna que seja a intenção, pois que sendo um móbil baseado na experiência, este nunca poderá fundamentar mais do que uma regra prática, nunca poderá fundamentar uma lei moral.

A Metafísica dos costumes pretende investigar a fonte desses princípios práticos a priori, que fundamentam a lei moral. É impossível julgar o valor moral de uma acção enquanto o seu princípio não for estabelecido, e só poderá ser estabelecido a priori, nunca através de «motivos empíricos, que o entendimento eleve a conceitos universais apenas pelo confronto das experiências» - É necessário atender às fontes dos princípios. Proponho-me portanto a investigar os princípios de uma vontade pura, não o condicionamento subjectivo, objecto da Psicologia.

domingo, 24 de abril de 2011

Psicologia Cognitiva e Dualismo

Esboço,

Porque havemos de averiguar os processos mentais por detrás dos comportamentos -
Os processos mentais por detrás das faculdade da mente -
O que é o processamento de informação -
O que é a inteligência artificial -
Onde pretendemos chegar com essa investigação -
De que pressupostos parte uma Psicologia que se institui como ciência?


Dualismo,
O Sujeito não é matéria.


- E sendo o Sujeito, vontade? - O que será a consciência em relação ao Sujeito?

If, Kipling, Rudyard

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!