sábado, 6 de agosto de 2011

Memorial da quase-corte de D. João V

Era uma vez, nos claustros do ano 1707, um conjunto de músicos nobres que sonhava conseguir as partituras da corte de D. João V para formar uma orquestra de câmara. Como isso se anunciava um sonho objectivamente impossível, dado todas as proibições, escusas e dificuldades que a época em causa vestia, decidiram encontrar-se para ensaiar algumas passagens que bem conheciam de ouvido, dos festins no palácio real, e então esperar para ver o que dava. No entanto, no dia em marcaram o primeiro ensaio, um deles teve que ir à missa, e era o que tinha melhor ouvido. Na segunda data planeada, outro dos músicos teve que dar uma lição de cravo à Infanta Dona Francisca. Sem o baixo contínuo, como poderia fazer-se o ensaio? A viola da gamba ainda não conhecia a sua linha melódica porque ao ensaio anterior tinha faltado o músico-do-bom-ouvido. Pela terceira vez em que se marcou uma reunião, foram alguns; entre os outros, um foi visitar a família ao Norte e os outros tiveram um jantar com o rei. Sem violino e flauta, decidiu fazer-se um ensaio de naipe. Mas era o violinista o concertino, pelo que o andamento não acertou, nem o compasso tão pouco. Ao quarto ensaio ninguém podia ir porque todos tinham outra coisa para fazer e pouca vontade de sentirem os canais auditivos serem tão ofensivamente tratados por instrumentos preguiçosos e descompassados no tempo. Então os músicos acharam que era melhor esquecer a primeira parte do plano, a de se encontrarem para ensaiar algumas passagens que conheciam bem de ouvido, e optaram por esperar para ver o que dava, e foi a melhor solução. Ao fim de uns anos, alguns tiveram netos, outros tiveram sobrinhos e outros permaneceram sozinhos, vivendo com outros familiares. Mas todos acabaram por morrer. Nenhum deles descobriu o que os ensaios poderiam ter semeado.

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