segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Relatos biográficos de crianças normais

O pequeno John perguntou ao seu mestre: «Mestre, como poderei eu ser feliz conjugando a minha existência com a da Filosofia?». O mestre respondeu: «Pensa que ela não existe. Escolhe-te a Ti e mata-me se conseguires. Mas esquece de quem alguma vez fui e cega os olhos à Filosofia.»

A pequena Marie sofreu uma zanga geral do grupo de amigas com quem brincava à tarde no recreio depois de ter partido a boneca de Sophie. Quando não aguentava mais não ter amigas, perguntou à mãe, entre soluços desconsolados: «Mãe, o que fazer para ter as minhas amigas de volta?», ao que a mãe respondeu, aliviando-lhe as bochechas do sal líquido que  lhe escorria pelas faces rosadas: «Querida, finge que elas não existem! Arranja amigas novas ou brinca sozinha. Mas quando passares por elas, não olhes para elas!»

O pequeno Hans queria fazer um trabalho de grupo, mas os colegas tinham sempre outras coisas que fazer. Quando perguntou ao pai: «Papá, como vou fazer o trabalho? Tenho que o entregar amanhã, ou a professora vai ficar muito aborrecida...», o pai respondeu: «Faz sozinho! E nunca mais faças grupo com eles.»

Os habitantes do Morro do Matagato poderiam ter feito o mesmo, mas por alguma razão, Jorge Amado assim não decidiu. Não entendo a racionalidade de alguns humanos, incluindo esta que aqui está. Talvez seja melhor fingir que não existe, até que o constrangimento temporal me impeça de continuar fingindo que existe algo para além do agoiro trapalhão e monótono do túnel sem fim, revestido de abafadores acústicos.

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