A não-geração do século 21
10/10/2008
Manoela Sawitzki e Luisa Kiefer
Enquanto punks, unders, roqueiros e botequeiros das primeiras gerações a usar all star se acotovelavam na Oswaldo Aranha, entre o bar João e o Escaler, em busca de álcool barato e otras cositas más, eles, decerto, davam os primeiros passos no mundo das letras. Ainda não tinham fôlego para bons poemas e vasta prosa. Mas alguns já conseguiam juntar “a” com “u” e concluir que ali havia alguma coisa.
Foram ninados no berço nem tão esplêndido da década de 80. Eram jovens demais para saber que resíduos da ditadura militar ainda atravancavam muitas gargantas. Seus pais, tios, vizinhos, irmãos mais velhos queriam Diretas Já, descobriam o HIV, preocupavam-se com a Guerra Fria e a ameaça atômica. Agora, vinte e tantos anos depois, é a sua vez de fazer história – contando histórias, criando vozes.
Antônio Xerxenesky, Bernardo Moraes, Carol Bensimon, Diego Grando, Jorge Bucksdricker e Telma Scherer são escritores. Três prosadores e três poetas. Todos gaúchos com mais de 22 e menos de 30 anos. São jovens, não há dúvida, e, segundo dizem, apesar de cronologicamente pertencerem a uma geração, não têm em sua literatura traços que os definam como uma unidade ou corrente literária. Também não pretendem promover nenhuma revolução estilística, como os modernistas do início do século passado. Tampouco são frutos da vertente blogueira dos anos 2000 (no caso deles, internet é mais conseqüência do que causa) ou da turma de Daniel Galera, Paulo Scott e Daniel Pellizzari.
Possivelmente essa independência seja sintoma de uma época. Difícil etiquetá-los e reuni-los num mesmo saco – a não ser pelo fato de todos estarem estreando no universo literário, alguns no primeiro, outros no segundo livro. Dos seis, três publicados pela mesma casa, batizada com o interessante nome de Não Editora.
Seus livros abordam temas do cotidiano, relações familiares, a passagem para a vida adulta, os conflitos da existência. Enfim, questões que movem escritores desde que eles surgiram no planeta. E cada um o faz a sua maneira, como todo autor deve fazer. Aliás, embora nenhum deles negue o valor de um bom e velho livro impresso e disponível na prateleira, há variações em seus modus operandi que vão dos poemas estampados em balões e cubos de Diego Grando, à junção de poesia e artes plásticas de Jorge Bucksdricker e às perfomances poéticas de Telma Scherer.
Minimundo (IEL, 2006), de Bernardo Moraes, carrega nas doses de humor e ironia em contos curtíssimos. Já Carol Bensimon, com Pó de Parede (Não Editora, 2008), aposta em pequenas histórias, que ela prefere não chamar de contos, e que exploram de maneira mais profunda o ser e estar no mundo. Areia nos dentes (Não Editora, 2008), de Antônio Xerxenesky, leva o leitor até um faroeste de diálogos rápidos e capítulos curtos, com uma escrita que flui e intriga. Há mistério no ar.
Telma Scherer, em Rumor da Casa (7Letras, 2008), constrói seus versos dentro da casa onde vó Elza tricotava, por que é ali, naquela casa, que a sua história e literatura nasce, vive e cresce. Como os editores apresentam: “se começa com silêncio, o livro termina com som”. No Carrossel Desencantado (Não Editora, 2008) de Diego Grando, é possível encantar-se, rodopiar, girar e pedir para rodar mais uma vez. Jorge Bucksdricker mostra em Solstícios (IEL, 2005) uma poesia altamente pessoal e subjetiva, com completo domínio rítmico e melódico.
Leia a íntegra da reportagem na edição impressa de APLAUSO 95..."
em APLAUSO - Cultura em revista, http://www.aplauso.com.br/site/portal/anteriores.asp?campo=1136&secao_id=81.
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