domingo, 22 de maio de 2011

Goetz, Franz, Conversa sobre a Humanidade - Moral Kantiana, Consequencialismo utilitário

I

Franz - Com certeza que se pretende unir todo o homem por uma mesma máxima, essa máxima terá que ser válida enquanto lei universal, em concordância com todo o homem que por ela escolhe reger as suas acções.

Goetz - Sim.

Franz - Mas todo o homem difere do próximo, iremos sempre encontrar máximas inconciliáveis, que uns arrogam justas e outros arrogam atrozes. Toda a história da humanidade demonstra precisamente a impossibilidade de uma tal máxima universal.

Goetz - A ciência ética, a Antropologia prática, demonstram, como diz, o modo como as coisas acontecem, o que por si não demonstra a impossibilidade de algo que não acontece. Vejamos que o que acontece diz respeito à natureza, e a natureza ou a realidade das coisas remete, pelo uso especulativo da razão, à necessidade absoluta de uma causa suprema, inalcançável ao entendimento.

Franz – A causalidade é uma lei da natureza, causa – efeito, todo o efeito tem uma causa.

Goetz - Todo o conhecimento se inicia com a experiência, o que não é o mesmo que dizer que todo o conhecimento deriva da experiência. As leis da física clássica têm aplicação e funcionam, mas não gozam do estatuto de leis absolutamente necessárias, a nível atómico estas leis do movimento deixam de funcionar e passam a aplicar-se leis da mecânica quântica, que por sua vez também não gozam do mesmo estatuto absoluto e necessário. Leis que tenham este carácter são fundamento de conhecimento a priori. A causalidade é conhecimento a priori pois que se verifica independentemente da experiência, mas não totalmente, pois que foi necessário que a maçã tivesse caído em cima de Newton para que este pensasse que todo o corpo extenso sofre o efeito da força da gravidade. Causa – efeito, mas eis que no conhecimento a priori nada pode ser atribuído aos objectos que o sujeito pensante não extraia de si mesmo, digamos que para que a experiência sensível se torne organizada.

Franz – «Absolutamente necessário», o carácter de que a lei moral deverá gozar, mas o que é absolutamente necessário para mim, pode não o ser para si.

Goetz - Eis porque se demonstra a unidade da razão prática com a razão especulativa num princípio comum – O homem pensa pelos mesmos princípios da razão.

Franz – Mas tem costumes diferentes.

Goetz - Se retirarmos aos corpos tudo o que de empírico os torna particulares, a côr, a temperatura, a forma, diremos que todos partilham algo em comum, como o espaço, portanto o espaço é absolutamente necessário. Pense analogamente em relação ao homem.

Franz – Todo o homem é racional.

Goetz - Todo o homem tem os mesmos princípios da razão. Em nome das suas leis, numa crítica à razão pura, temos conhecimento a priori de leis absolutamente necessárias na razão especulativa tanto como na razão prática, e pensamos que será fundado na razão e gozando portanto do mesmo carácter absolutamente necessário, o princípio supremo da moralidade.

Franz – Mas reafirmo que o homem tem costumes diferentes, e concordo que tudo esteja submetido a leis naturais, mas porque é que a causa suprema está fora dos limites do entendimento humano?

Goetz - Concordo que tudo esteja submetido a leis. O conceito de causalidade: a toda a causa é posto um efeito. Nós conhecemos as coisas pelo modo como estas nos afectam, ou seja, conhecemo-las enquanto fenómenos. O entendimento é uma actividade própria do homem enquanto sujeito, reúne na sua consciência as representações sensíveis (fenómenos) às quais submeteu às suas categorias como o espaço e o tempo, e também a causalidade é uma dessas categorias.

Franz – Não se pode conhecer a causalidade mas pode-se pensar que ela exista.

Goetz - O homem tem consciência de si no mundo sensível porque constata as suas acções como fenómenos, portanto efeitos da sua causalidade.

Franz – Portanto como o homem não pode conhecer a coisa em si, não pode conhecer a natureza da sua vontade. Mas é por isto mesmo que as máximas dos homens são inconciliáveis, cada um tenta fundar as suas máximas morais no confronto das experiências. Não podemos conhecer a causalidade.

Goetz - Mas podemos pensá-la.

Franz – Podemos pensar que existe.

Goetz - Pensaremos a causalidade do homem como a sua vontade.

Franz – A sua acção?

Goetz - A escolha da sua acção.

Franz – Portanto o homem terá liberdade de escolher a sua acção… Mas não esqueçamos que se ele não pode conhecer a causa, não pode agir livremente porque estará sempre determinado por algo que lhe é oculto. Como concordámos, tudo está submetido a leis naturais, podemos conhecer a realidade das coisas, mas não as coisas em si.

Goetz - Concordei que tudo está submetido a leis, mas não concordei com que tudo está submetido a leis naturais. O homem não está submetido somente a leis naturais. Partiremos da pretensão legítima de que a vontade humana é livre.

Franz – De que valeria a pena conversarmos senão acerca da liberdade? Conheço um probo senhor que assere frequentemente e com modéstia, «estou aqui para aprender». Claro está que a disposição para a dialética faz com que certas e tais modéstias não mais sejam que propósitos de má fé para disfarçar a fraqueza da vontade: ela sabe não encontrar fundamento suficiente para arrazoar as suas escolhas, e então que se refugia num determinismo assim que a ideia de liberdade se revela mais plausível.

Goetz - Ai já não «estará aqui para aprender».

Franz – Não, aí não. – Sorriu de volta.

Goetz - A dialética natural consiste precisamente nisso, numa resistência natural das inclinações do homem sobre a determinação objectiva da sua vontade, e a história da humanidade é fecunda em exemplos dessa fraqueza de vontade. Eu e o Senhor, lamentavelmente, seremos alvos dessa fraqueza também, é com grande artifício e sagacidade que nos ludibriamos a nós mesmos.

Franz – Partindo da pretensão legítima de que a vontade humana é livre.

Goetz - Quando o homem se pensa, considera-se como um ser racional, que o coloca portanto numa outra ordem de coisas e em relação com princípios determinantes de espécie totalmente diferente, portanto independentes de causas determinantes do mundo sensível.

Franz – Mas não fará o homem parte da natureza?

Goetz - Sim, faz parte da natureza. O que é que o leva a fazer a pergunta?

Franz – Como é que a sua vontade pode ser independente de causas determinantes do mundo sensível se faz parte do mundo sensível?

Goetz - O homem é um ser racional, e é necessário que se atribua liberdade como propriedade da sua vontade, pois é apenas sob a liberdade da sua vontade que ele pode agir. A vontade do ser racional é a razão prática, ou seja, a causalidade em relação aos seus objectos.

Franz – «A razão prática é a causalidade», então através da razão, o ser age livremente.

Goetz - A razão pura dar-nos-á os princípios ou as leis da nossa acção, através de representações das leis, através da razão prática.
Franz manteve-se imóvel durante uns minutos, fitando Goetz.

Goetz - Está a reflectir?

Franz – Pretende continuar a falar sozinho?

Agora foi a vez de Goetz se manter imóvel, fitando Franz.
Goetz - Perdão – disse. - Por vezes ficamos tão acostumados a conversar dentro da academia que incorremos no erro de pensar que estamos apenas a falar acerca de uma teoria de escola, que não pode ser dita sem ser pronunciada pelos termos exactos. Esclarecerei os termos para que os possamos utilizar de futuro.

Franz – Obrigado.

Goetz - Se pretendemos dizer que o homem é livre, a sua liberdade é a causalidade da sua vontade, pois que de outro modo a sua vontade seria determinada pela necessidade natural, portanto pelas leis da natureza. Fosse este o caso, o homem não seria livre. Mas o que é ser livre? A ideia de um ser absolutamente livre transcende o entendimento humano, e teremos de considerar o mundo inteligível como um conceito necessário que a razão precisa tomar fora dos fenómenos para se pensar a si mesma como prática.

Franz – Portanto o mundo inteligível é o ser racional como coisa em si mesma?

Goetz - Sim, o todo dos seres racionais como coisas em si mesmas.

Franz – Portanto as coisas em si dos mundos sensível e inteligível são inacessíveis?

Goetz - Representam o limite do entendimento humano. Se quisermos pensar um ser com racionalidade e com consciência da sua causalidade a respeito das suas acções, e portanto com vontade, temos de considerar a sua liberdade, a autonomia da sua vontade, pois que de outro modo, a sua vontade seria determinada não pela sua razão, mas pelos seus impulsos.

Franz – E tomamos tantas decisões por impulso…

Goetz - Por efeito da dialética natural e pela fraqueza da nossa vontade!

Franz – Apercebo-me de que está a ser dito que o homem é definido pelos seus impulsos e pela sua razão.

Goetz - Nós estamos a atentar a uma definição da vontade do homem porque estamos a atentar à especulação de uma máxima que possa ser válida como lei moral universal para que se possam conciliar as vontades de todos os homens. Se as vontades dos homens são absolutamente díspares umas das outras, a tarefa será inútil. Agora se encontrarmos algo nas vontades de todos os homens, tal que todo o homem, por ser homem, partilhe, talvez ai se possa fundar uma máxima moral universal.

Franz – Sim… O homem tem os mesmo princípios da razão. Mas passemos à investigação da vontade do homem. O homem é um animal racional, tem consciência das suas acções. Ora ter consciência das minhas acções é i) ou ser um mero espectador do modo como a minha mente interage com o mundo ou ii) ter livre arbítrio e portanto tomar parte das minhas acções.

Goetz - Compreendemos que nem que fosse pela vontade de continuarmos a nossa conversa, escolheríamos a segunda hipótese: a liberdade.

Franz – Concordo, ainda que pelo que já foi dito até agora, pergunto-me se o mundo inteligível, ou «a direcção do mundo inteligível», não será outro impulso da vontade do homem, que então se voltaria a determinar por uma única lei em vez de duas.

Goetz - O que é que define o homem?

Franz – A sua espécie: animal - racional. Mas não penso que devamos atender apenas ao «racional».

Goetz - Diria que toda a acção tem um fim?

Franz – Sim. Não um hedonismo ou um prazer de justa-medida num jardim de Epicuro, a felicidade é subjectiva, e se procurarmos o maior bem-estar para o maior número, teremos sempre o menor número, e o que é se faz com o «menor número» ou o que é que o menor número fará em relação ao maior?

Goetz - Qual será a teleologia então?

Franz – Colocaram-me o seguinte caso noutro dia: «Se estivesses a bordo da carruagem piloto do metropolitano, e o metropolitano estivesse programado para não parar a não ser na sua estação de chegada, e a única coisa que pudesses fazer fosse escolher uma de duas linhas, qual escolhias sabendo que numa delas estariam 5 operários que não reparariam na chegada da carruagem a tempo, e que portanto iriam perder a vida, e que na outra linha estaria apenas 1, que iria também perder a vida caso eu escolhesse a linha onde ele estava. Qual seria a tua decisão?»
Respondi que escolheria a segunda hipótese, atropelar 1 em vez de 5. Algum tempo depois, voltei a pensar no caso e a analisar a minha escolha e decompus o problema da seguinte forma:

O único factor pelo qual me guiei foi o factor quantidade. Ora a quantidade por si só não tem qualquer significado, pois que um aluno prefere ter 1 professor que saiba falar sobre filosofia do que 10 que nada mais façam do que reproduzir na íntegra ideias de outros. Para justificar a minha escolha teria de referir o factor qualidade, mas eu não tinha acesso a esse dado.
Pensei depois que existiria uma outra condição: A morte. A morte de 5 é pior que a morte de 1, mas rapidamente me apercebi que a escolha continuava a ter sido feita com base na quantidade, que em si não representa nada. Apercebi-me de que justificava a minha escolha com algo vazio.

Daí inferi que mesmo que soubesse as qualidades de cada um dos operários, elas seriam por sua vez subjectivas, a inteligência de um homem não especifica para o que é que ele a vai utilizar; a bondade de outro homem não especifica em que é que ela vai resultar, e então apercebi-me de que uma vez que as consequências das nossas acções estão fora do nosso poder, não podemos fundamentar a nossa escolha no resultado da nossa acção, porque o resultado não é necessariamente o fim que pretendi alcançar.

Goetz - E o que é que sugere?

Franz – Tenho pensado sobre isso.

Goetz - Se o resultado da nossa acção é incerto, o valor da nossa acção não deverá depender do seu resultado, mas talvez se depender da acção como fim em si, talvez aí tenha valor.

Franz – O que pretendes dizer com isso?

Goetz - Que se uma acção tiver valor moral em si mesma, porque é este o assunto que estamos a tratar: Se procuramos uma máxima que se seja válida como lei moral universal, procuramos uma conduta universal, e então uma acção com valor moral é uma acção segundo essa lei moral universal – O seu valor não pode depender do resultado da minha acção, dependerá do seu valor intrínseco.

Franz – Mas donde advém o valor intrínseco da acção?

Goetz - Da ideia de boa vontade. Dizias que o homem é definido pela sua razão e pelos seus impulsos. Iremos substituir a palavra impulsos por inclinações. Ora as inclinações são como vontades que se querem concretizar ou satisfazer. Como já vimos, cada homem terá as suas inclinações e procurará satisfazê-las na medida em que procura ser feliz. A felicidade é portanto a satisfação destas inclinações, e diferenciando de grosso modo entre hedonistas e perfeccionistas, uns procuram os prazeres sensíveis e ausência de dor, outros a presença de bens com valor intrínseco como o conhecimento, a amizade, a apreciação estética… É fácil de ilustrar um cenário em que diferenças menos díspares que estas contribuíssem para que os homens deixassem de conseguir viver em sociedade. Como vimos, o valor moral da acção não poderá ser sustentado por um fim subjectivo uma vez que o valor moral ou motivo pelo qual eu agi não pode ser avaliado pelo resultado da minha acção. A felicidade é um bem, mas um bem subjectivo.

Franz – Mas por contraste, existirá algo «objectivamente bom», ou seja, algum móbil que garanta que a minha acção tenha valor moral?

Goetz - Consegue pensar em algum?

Franz – Todo o homem pretende.

Goetz - Algo?

Franz – Todo o homem vive em sociedade, e todo o homem que vive em sociedade, a pretender algo em comum, terá que acordar com esse algo, como por exemplo a vida. Todo o homem é um ser ordenado em função de um fim que é a vida. Se o homem respeitasse o direito à vida do outro, poderiam todos juntos viver de acordo com a mesma lei moral, mas o que é mesmo viver? Nem todos teríamos a força de perder a audição e compor ainda uma nona sinfonia. Creio que nenhum de nós abdicaria do seu bem-estar.

Goetz - Portanto considera que o bem-estar ou a felicidade seriam em si a máxima que se elevasse a lei moral.

Franz – Se procurássemos o maior bem-estar para o maior número possível, isto porque a história da humanidade nos mostra que é impossível que seja de outra forma, mas de que forma é que tal ideia pode ter a pretensão, ainda que bem intencionada, de resolver o assunto? Sei que as inclinações toldam a razão – a dialética natural, como disse – todo o objecto da inclinação é contingente e subjectivo na medida em que terei sempre que satisfazer as inclinações com o uso da razão, para que pela sobreposição das inclinações, umas sobre as outras, não sofra eu próprio com a minha procura subjectiva pelo meu bem-estar. Mais facilmente argumentaria que deveríamos acordar num espectro de valores superiores, aos quais apelaríamos se valores inferiores entrassem em conflito, mas não será isto o mesmo que dizer que o que é um valor superior para um homem, pode não o ser para outro homem?

Se eu considero determinado fim prático como a maior felicidade para o maior número como fim da lei moral, sou forçado a admitir que todo o outro que não se rege pela mesma lei moral, não é abrangido pela mesma e portanto também ele será meio sem ser fim. Ora de que modo é que este consequencialismo se arroga como lei moral universal se o fim iria sempre justificar o meio?

Goetz - Prestei particular atenção à boa intenção da ideia, «de que forma é que tal ideia pode ter a pretensão, ainda que bem intencionada, de resolver o assunto?» Já vimos que o valor moral da nossa acção não pode depender do efeito da nossa acção, mas sabemos também que qualquer acção tem um objecto. Se o objecto da nossa acção for o somente meio pelo qual alcançamos o fim moral, e o fim moral não for uma obrigação, um dever ou algo absolutamente necessário, então estamos determinados a falhar a verificação que exige a universalidade da lei moral. Ora um fim que não seja absolutamente necessário não é válido enquanto obrigação, é contingente, desistimos do meio se desistimos do objecto da acção, assim como escolhemos um meio em função de novo objecto da nossa acção.
Qualquer teoria utilitarista acenta no maior bem-estar para o maior número possível de indivíduos, devendo cada indivíduo agir sem egoísmo, não diferenciando o Eu do bem-estar de Todos, não se devendo considerar a utilidade com a imediatez da satisfação, a moralidade do acto é ponderada com racionalidade.

Franz – Mas não será isso o maior número possível, o domínio abrangido pela lei moral universal?

Goetz - A felicidade ou o bem-estar têm de ser conceitos cuidadosamente depurados, até lá são demasiadamente abstractos e subjectivos para podermos pretender fundar uma lei moral que os tenha como objecto. Vejamos novamente que tudo é governado por leis. Temos dito que existirão acções com valor intrínseco

Franz – Que iríamos analisar através do conceito de boa vontade.

Goetz - Correcto. Se tudo é governado por leis, a vontade é a causalidade dos seres racionais que têm que se considerar como livres

Franz – Por um acto de boa-fé.

Goetz - Regressaremos a esse aspecto. Todo o ser racional é livre, ou tem que se considerar livre, sendo a sua liberdade, propriedade da sua vontade. Para que o ser seja livre a sua causalidade tem que ser independente das leis da natureza, que são por sua vez causalidade de todos os seres irracionais. Esta definição de liberdade é negativa porque não podemos conhecer a sua essência apesar de a podermos pensar. Mas desta definição emerge um conceito positivo, pela causalidade todo a causa tem que produzir um efeito, e se a nossa liberdade produz um efeito no mundo, então estamos sujeitos a leis imutáveis. Vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa, e assim pretendo introduzir a ideia de autonomia da vontade, «A vontade é em todas as acções, lei para si mesma»

Franz – Seria uma heteronomia se fosse determinada pelas leis da natureza...

Goetz - E consequentemente, a liberdade seria um absurdo.

Franz – Portanto, a vontade é causa de si mesma.

Goetz - Sim.

Franz – E as inclinações?

Goetz - Vejamos que a vontade é concebida como a faculdade de se determinar a si mesma a agir em conformidade com a representação de certas leis, portanto razão prática, e que sendo de constituição subjectiva, sempre sobre a influência de móbiles, é objectivo da razão prática criar uma boa vontade. Somos dotados de uma vontade imperfeita porque não agimos necessariamente pela representação das leis morais. Se no campo teórico temos de admitir o contacto com a realidade incognoscível das coisas, no campo prático teremos que admitir a autonomia dos princípios da razão.

Franz – Portanto se não posso fundar a lei moral em nenhuma necessidade natural como a felicidade, porque esta é subjectiva e falha a priori o teste da validade enquanto lei universal, talvez possa fundar o princípio universal nos princípios da razão, universais a todo o homem...

Goetz - É o que pretedemos mostrar.


II

Franz – Portanto, o que será uma vontade perfeitamente boa?

Goetz - Uma vontade que esteja igualmente submetida a leis objectivas, mas que não esteja obrigada por essas leis porque ela só poderá ser determinada pela representação do bem.

Franz – Claramente que o homem não será uma vontade perfeitamente boa, mas fundando a lei moral nos princípios da razão, como é que agimos por esses princípios?

Goetz - O princípio supremo da moralidade tem um carácter a priori porque tem que ser necessário e universal, pelo que o homem não funda a lei, a lei existe por si, tal como a boa vontade, portanto agindo pelos princípios da razão, agiremos moralmente. Devido à constituição subjectiva da nossa vontade, somos obrigados a agir pela representação das leis expressas através do conceito de dever, portanto de imperativos. Eu e o Senhor somos ambos homens, mas somos homens diferentes, pelo que a boa vontade é determinada objectivamente pelo princípio formal que não se relaciona com a matéria da acção e com o que dela deve resultar, mas com a forma e o princípio que dela mesma deriva – a autonomia, a vontade como legisladora – subjectivamente, é determinada pelo respeito que temos pela lei moral, um sentimento que se produz por si mesmo através de um conceito da razão, e assim é especificamente distinto de todos os sentimentos de outro género que se podem reportar à inclinação ou ao medo. Este sentimento de respeito é a consciência da subordinação da vontade à lei moral.

Franz – Mas eu sei que a minha vontade é determinada pela razão na medida em que me aprofundo em deliberações racionais, e sei que por vezes «sinto que deveria agir de tal maneira», mas não consigo tomar essa deliberação moral racionalmente.

Goetz - Todos os imperativos são analíticos porque são princípios da razão, e nós: seres racionais - ou seja, se queremos um Querer, queremos um Meio, pelo que teremos infindáveis imperativos hipotéticos para cada fim que pretendamos alcançar, se nos referimos a qualquer fim prático como «o escrever um trabalho para a cadeira de Ética», recorremos aos imperativos hipotéticos de destreza, se nos referimos ao fim específico da felicidade, então fá-lo-emos através de imperativos hipotéticos de prudência.

Franz – Portanto os mesmos imperativos dos quais todo o homem se serve quando pretende fundar uma lei moral no próprio conceito de felicidade.

Goetz - Mas vejamos que os fins dos imperativos hipotéticos não gozam do carácter absolutamente necessário, pelo que podemos prescindir dos meios, prescindindo dos fins.

Franz – Compreendo. Se o próprio objecto da acção é subjectivo, essa acção não tem necessariamente valor moral. Mas todo o fim da acção é subjectivo porque todo o fim da acção não é nada em si. Posso considerar que ajo por bem, e como vimos, não posso esperar saber que agi bem, mediante o efeito da minha acção portanto o meu acto terá que ter um género de valor intrínseco... Mas é demasiado abstracto agir por objectos que tenham valor intrínseco.

Goetz - Toda a lei prática representa uma acção possível como boa, quer uma acção com um fim específico, quer uma acção boa em si mesma. O imperativo diz-me qual das acções é boa, representando a regra prática em relação com a minha vontade. Portanto se o fim do nosso imperativo for contingente, não poderemos encontrar ai o nosso princípio moral.

Franz – Não.

Goetz - Podemos diferenciar a máxima da lei do seguinte modo: a primeira é o princípio pelo qual o sujeito age, a segunda o princípio pelo qual o sujeito deve agir.

Franz – Um pouco como a diferença entre a ordem pela qual as coisas acontecem e devem acontecer.

Goetz - Precisamente por essa ordem. Ora se os imperativos se apresentam como meios para efeitos possíveis, mas é da razão que se deriva a lei prática, o princípio supremo da moralidade será um imperativo, e um imperativo categórico, pois que se nos aplica incondicionalmente. Ele ordena que se aja incondicionalmente perante o próprio princípio como fim em si.

Franz – E em que é que isso se traduz?

Goetz - Todo o ser racional não é necessariamente determinado pela relação da lei objectiva com a sua vontade. A lei objectiva é boa em si, e só agindo pela representação da lei poderemos agir moralmente, e então que esta se possa representar por uma máxima que tenha como fim algo que tenha valor intrínseco: A boa vontade, portanto o ser racional, que enquanto conceito que se aplica universalmente, aplica-se a todo o ser racional, e portanto a todo o homem, a toda a humanidade., «age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio»

Franz – Extende-se assim a todo o homem porque considera todo o homem como fim em si na medida em que todo o homem pode escolher ser determinado pela lei moral e portanto livre.

Goetz - Vamos considerar três fórmulas para o imperativo categórico, a da universalidade que tem vindo a ser discutida, «age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal», a da humanidade, já referida, e a do reino dos fins, age segundo máximas de um membro universalmente legislador em ordem a um reino dos fins somente possível»

Franz – Essas fórmulas parecem máximas, portanto princípios subjectivos da acção...

Goetz - E são máximas, princípios subjectivos na medida em que são princípios pelos quais um sujeito realiza um acto particular, especificando a acção a realizar em função de determinado fim. Ora estas máximas são objectivas se forem moralmente aceitáveis, em virtude de serem válidas como leis universais e «poderem servir para a nossas própria legislação universal».

Franz – Toda a acção terá que ter um objecto, um fim, e já vimos que esse fim terá de ter valor em si, como a boa vontade, a humanidade portanto.

Goetz - Positivamente, temos de tratar toda a pessoa como fim, negativamente, temos de tratar toda a pessoa como meio e fim em simultâneo, pois que nada me impede de disfrutar das suas perguntas para que eu próprio e o senhor possamos compreender melhor a lei moral de Immanuel Kant.

Franz – Uma ética que acente no bem-estar é permissível que o outro seja tratado como meio sem o ser como fim....

Goetz - Porque não tem o carácter universal a priori. Analogamente, servem-se dos imperativos de destreza ou de prudência para fundarem uma ética.

Franz – A motivação para um imperativo de destreza é simples de conceber, se quero um fim, quero um meio, a analiticidade da proposição que referiu, o que não impede que o fim que pretenda necessite em si de ser discernido, pois que a conceptualização do nosso outro na nossa ciência ética fosse por exemplo, um especismo, então o nosso fim não seria por sua vez objectivamente determinado pela lei moral.

Goetz - E perguntamo-nos qual possa ser a motivação para um imperativo categórico que se apresente como obrigação, como fim em si, como dever perfeito ou imperfeito.

Franz – Dever perfeito ou imperfeito?

Goetz - Um dever perfeito será restritivo, como o nunca agir por egoísmo. Um dever imperfeito será uma prerrogativa, como a complacência para com os outros. Estes últimos não são necessários assim como não são suficientes, pois podemos em qualquer altura auxiliar quem precise de ajuda, não querendo com isso dizer que pretendmos fazer disso um fim.

Franz – Os nossos imperativos têm portanto dois tipos de fins, os objectivos e os subjectivos, dentro de estes últimos contam-se todos aqueles que são relativos, não absolutamente necessários como as leis morais que se expressam por estas três fórmulas.

Goetz - A humanidade é um fim objectivo, a complacência não.

Franz – Se violarmos um fim imperfeito, tratamos o outro somente como fim.

Goetz - Bem como que se violarmos um dever perfeito, tratamos o outro somente como meio. A fórmula do reino dos fins tem capital importância. Quando dizemos que a vontade não está apenas submetida à lei moral, que é também legisladora universal, referimo-nos ao princípio da autonomia. É através deste princípio que os seres racionais têm valor absoluto e portanto a humanidade também.

A autonomia sustenta-se no facto de que não formos legisladores da lei prática a que estamos submetidos, teremos sempre que pressupor um qualquer interesse ou inclinação para obedecermos a esse valor, perdendo-se completamente o carácter objectivo, formal e a priori da lei moral

Franz – Perdendo-se o conceito de liberdade.

Goetz - O Reino dos Fins é uma comunidade de seres racionais, portanto o valor intrínseco da humanidade bem como o é o valor intrínseco da boa vontade para um ser racional. Quando referimos a liberdade a que o ser racional se candidata, defenimo-la negativamente porque não podemos conhecer a sua essência, mas positivamente porque sabemos que a nossa liberdade tem efeito no mundo natural, e então que como tudo é gerido por leis, a nossa liberdade terá de estar submetida a leis morais, nós teremos que estar submetidos a leis morais, ora como para sermos livres, não podemos admitir que o somos por estarmos submetidos a leis pelas quais tenhamos que ter uma inclinação, teremos que ser a causalidade dessas próprias leis, portanto uma vontade autónoma.

Franz – A liberdade é a propriedade da vontade de ser lei para si mesma.

Goetz - E essa lei será o Imperativo Categórico - tal e qual como um estado livre. Um estado livre não pode ser um estado sem leis, ora estas leis da liberdade terão que ser as leis das vontades dos seus cidadãos. A constituição deste estado emana dos seus cidadãos assim como a lei moral emana da boa vontade como causa de si própria.

Franz – Somos livres porque as nossas acções encadeiam efeitos, de outro modo não seríamos autores das nossas acções, tal como foi dito, «a deliberação racional perderia todo o sentido», mas tal como «a coisa em si» permanece incognoscível, porque temos de admitir que tudo o que conhecemos de abolutamente necessário, e portanto de a priori, é o que o sujeito nelas coloca e de si mesmo extrai; então também não podemos dizer que conhecemos o eu livre, numénico.

Goetz - Mas podemos pensar que enquanto membro do mundo inteligível, é livre, e isso bastará por agora para demonstrar que sendo necessário que sejamos autores das nossas acções, temos que ser legisladores e portanto causalidade da nossa escolha, e que esta terá valor moral se for em ordem a um reino dos fins, tendo-me a mim e ao outro simultaneamente como fim e meio.

Franz – Cumpre-se a exigência de universalidade, mas todo o outro que não esteja incluído no domínio do ser racional, poderá ser utilizado somente como meio.

Goetz - A diferença entre pessoa e coisa reside precisamente na determinação pela vontade. Um ser racional é determinado pela sua vontade e é portanto considerado enquanto pessoa. Tudo o mais que seja somente determinado pela natureza, terá o carácter de coisa, que possui um valor relativo, servindo apenas como meio. Teremos obrigações indirectas para seres irracionais, como os animais por exemplo. Na constituição subjectiva da nossa vontade, tal como devemos assegurar a nossa felicidade pelo intermédio da prudência (pois que de outro modo, a própria infelicidade constituiria um obstáculo à determinação objectiva) devemos ter em atenção que a crueldade para com os animais predispõe a crueldade para outros seres, como os seres racionais, mas esta será uma conversa que terá que ser deixada para outro dia.

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