segunda-feira, 21 de março de 2011

Pouca-terra, pouca-terra

No final do Verão de 2010, não sei precisar o dia, passei a ter que me deslocar de transportes públicos, todos os dias da semana, sábado às vezes. Comboio e metro. Cerca de cento e quarenta minutos por dia, onze horas por semana que passo em transportes.

No início, a viagem passava rápido, entre a confusão da novidade e o embalo arredondado dos pensamentos que se acomodavam no assento do comboio. No metro, as várias estações, com nomes tão diferentes, tomavam o lugar umas das outras por debaixo da cidade. Não reparava em ninguém, todos estavam longe de mim. Um mês passado e o caminho expandiu-se, o tempo esticou até se tornar cansaço. Quando as horas de trabalho começaram a ultrapassar em muito as de descanso, e parecia impossível pensar noutra coisa com menos tortura, comecei a apreciá-lo e a senti-lo como parte de mim. Quando lhe damos atenção, ele deixa de gritar. Foi nessa altura que, não sei se por magia ou se por romantismo, percebi que há pessoas que viajam comigo todas as manhãs, e perdi também o pudor de colar os olhos durante a viagem e entregar-me ao engano confortável e sossegado do sono curto.

Começa-se a conhecer as pessoas com quem nos viajamos todos os dias, que se sentam à nossa frente e ao nosso lado; geralmente sentam-se nos mesmos lugares, depois adeus, até amanhã, vou para o trabalho, para a escola, para a universidade. Percebe-se um pouco da sua rotina, conhece-se as vozes, decora-se os rostos, bem como a estação em que entram e a persistência com que procuram o mesmo lugar de ontem, de ontem, de ontem. Começa-se a sorrir naturalmente e a sentir algum afecto, sumido, ainda assim (não podia ser de outra maneira).

Depois há as pessoas que se conhece do metro, as pessoas do comboio que entram no mesmo metro, ou no outro, e aí descobre-se: já são duas coisas em comum. Por vezes  ouve-se um nome, e fica-se a saber um pouco mais (mais nada) sobre as pessoas. Normalmente os meus olhos são atraídos pelos livros que os passageiros lêem, e de quando em vez, atiro um olhar a uma página, vejo o número, leio uma frase.

O mais engraçado é quando encontro, em sítios onde não costumo ir, pessoas que conheço do comboio. A troca de olhares admirados, se falasse, diria: "Conheço esta cara de onde?" - é delicioso!


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