“Estaremos à rasca?”
I
Estaremos à rasca …
enquanto uma qualquer geração projectar nas outras a origem e a solução dos seus problemas
enquanto quisermos respostas simplistas para problemas complexos
enquanto monoculturas forem preferidas a culturas diversificadas, e isto refere-se tanto a eucaliptos como a pensamentos únicos
enquanto continuarmos a governar e gerir pessoas e recursos numa perspectiva exclusivamente masculina, falocentrica, numa lógica de exploração e conquista, dos homens e mulheres e da Natureza também
enquanto não houver expressão das verdadeiras necessidades das pessoas junto dos seus representantes, e enquanto essa expressão não obtiver um eco empático verdadeiramente humano
enquanto continuarmos a confundir “necessidade” com “luxo”, a confundir “bem-estar” com “consumo”
enquanto acreditarmos que o lixo que produzimos magicamente se esfuma quando os camiões nocturnos o afastam dos nossos olhos
enquanto perpetuarmos sistemas piramidais em prejuízo de sistemas horizontais
enquanto continuarmos a acreditar que quanto maior, melhor, sem perceber que, tal como certa obesidade nos faz perder a consciência do nosso corpo, a macrodimensão dos bancos, empresas, corporações faz com que estas e as pessoas que as lideram percam contacto com o seu objectivo último, que deveria ser o de servir os outros
enquanto insistirmos em crescer impulsionados por energias esgotáveis, poluentes e arriscadas, como são o petróleo e o nuclear, em vez de, de uma vez por todas, reduzirmos o gasto, sendo mais eficientes, aproveitando os recursos inesgotáveis como sol, vento e marés, ou seja, ouvindo a natureza em vez de a querermos ultrapassar
enquanto não percebermos que, se quisermos evoluir, temos de mudar a nossa ideia de progresso
enquanto a lógica do lucro for mais importante do que a da generosidade
enquanto continuarmos a fechar os olhos ao monstro que temos debaixo da cama, a quem chamamos “o sistema”, que cresce e cresce como um cancro, alimentado por nós, pelos nossos actos e pelo nosso MEDO de ver a sua verdadeira dimensão. E digo-vos: o monstro é monstruoso…
II
Uma vez que o quadro que pintei se parece em muitas coisas com o retrato do mundo que nos aparece nos jornais e ecrãs de televisão, bem podemos dizer: estamos à rasca!
Um “à rasca” também pode ser um “arisco”. Os ariscos às vezes descem parte do lençol que lhes tapa os olhos e olham o monstro…:
Bancos estão a falir, deixando na ruína milhares de pessoas que pouparam vidas inteiras e que já não confiam na justiça. Países inteiros entram em falência e, depois de serem roubados por… pois é, de novo por bancos macrocéfalos…, são boicotados pelos mass media e até pelos motores de pesquisa na rede porque… porque são livres. A revolução no Egipto, na Argélia ou na Líbia enchem os telejornais e a rede, são povos oprimidos que se revoltam. Na Islândia, o povo tomou literalmente o Parlamento, demitiu o Governo, recusou-se a pagar a obscena dívida dos bancos e, milagre, está a ser governada por um conjunto de cidadãos. Em que noticiário viram isto? Tentaram procurar no Google?
Rupert Murdoch possui uma grande percentagem dos media britânicos e americanos. Haverá isenção nas “suas” notícias quando estas falarem de factos que põem em causa o sistema do qual Murdoch é um dos maiores beneficiários?
O que estou a fazer agora? A olhar para o monstro debaixo da cama. Sabem de que se alimenta? De medo e de dinheiro. Deste dinheiro. Do meu dinheiro. Do teu dinheiro.
III
À rasca arisco… Mas será que arrisco? Porque há muito risco envolvido (mas há muito risco de qualquer maneira…). Arriscamos?
Arriscamos mesmo descer uma Avenida de Liberdades, se soubermos que, com o clamor das nossas vozes e o vibrar dos nossos passos o mundo em que crescemos e vivemos poderá ruir de facto, como um facto parece ser essa ruína? Sabendo que temos preços altos a pagar naquilo a que chamamos o nosso conforto, o nosso bem estar, a nossa ideia de nós mesmos?
Talvez comecemos o caminho para deixar de estar à rasca quando
percebermos que nada nos é dado e que quase tudo tem de ser construído
percebermos que não há crescimento sem dor, sem frustração, sem enfrentar os tais medos e sem levar na cara, ou levar nalguns ideais, ou nalgumas ideias, como por exemplo a de que tenho direitos sem ter deveres. Quando doer, quando levar, e não amuar, e não fizer birra, então talvez comece a deixar de estar à rasca…
quando percebermos que somos nós que alimentamos o monstro com os nossos actos, e em particular os actos de consumo. Sou eu que consumo o plástico hediondo que mata a vida nos oceanos. Sou eu que faço não só o preço do petróleo subir ao consumir mais e mais gasolina, como o petróleo continuar a ser o ouro negro desta civilização. Devíamos agradecer cada cêntimo de subida no preço deste infame liquido. Andemos mais, muito mais, dividamos o carro nas viagens grandes. Falando em dividir..
Talvez deixemos de estar à rasca quando a competição der lugar à cooperação
quando a pirâmide der lugar ao círculo
quando o vertical der lugar ao horizontal nas relações entre as pessoas
quando consumirmos tendo em conta que tudo vem da Natureza e do trabalho e que ambos têm de ser respeitados
quando percebermos que SOMOS NATUREZA, e que explorar a Natureza é explorarmo-nos
quando o trabalho que escraviza for substituído por entrega que liberta (e não, não me estou a esquecer da História…)
quando formos exigentes connosco próprios, com aqueles que amamos e com os nossos representantes
quando a pragmática do “ter” for substituída pela evidência do “ser”
Quando finalmente nos lembrarmos que não nos chamamos “teres humanos” mas sim “SERES humanos”
quando a lógica do lucro for substituída pela ética da solidariedade
quando os egos inchados que nos levam às guerras, grandes e pequenas, forem tocados (e trocados) pelo amor
quando percebermos que são menos as coisas que nos separam e mais as coisas que nos ligam uns aos outros.
IV
Utópico? Mas como não ser utópico se o “topos”, o lugar que me oferecem para viver se está a transformar num lugar antibiótico, como os remédios que nos dão à primeira dor que aparece?
Por tudo isto tenho vindo a construir e participar de rituais neste cadinho do mundo que se chama “dISPAr teatro”, noutros círculos que frequento, e nalguns dos fóruns de que vou participando. Um desses rituais é o do círculo, que permite que nos encontremos com verdade, olhos nos olhos, que permite que nos toquemos.
Para terminar vou ler-vos um poema. Sugiro a quem quiser que aceite um desses rituais: pedir aos espectadores (ou espect-actores, como prefere Boal…) que toquem em alguém. Hoje, peço-vos que estejam em contacto com duas pessoas pelo menos, durante o poema. Quando este terminar, pedirei que se olhem nos olhos e digam: “Obrigado, e bem (h)ajas”.
Porque dizer “obrigado”, dizer “ob ligatio”, é como dizer “estamos ligados”, e só vejo um caminho rico para nós se for feito em ligação. “Bem (h)ajas” convoca-te, na sua duplicidade fonética, para que tenhas o Bem, aquilo que é Bom para todos, mas também para que ajas em função dele. Obrigado e bem hajam, com e sem “h”.
António Gonzalez
Três coisas
Três coisas pra mim no mundo, valem bem mais do que o resto
Pra defender qualquer delas, eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto
Pra defender qualquer delas, eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto
O gesto é a voz do proibido, escrita sem deixar traço
Chama, ordena, empurra, assusta, vai longe com pouco espaço
É o passo, é o gesto, é o grito
É o gesto, é o grito, é o passo
O passo começa o voo que vai do chão pró infinito
P’ra mim que amo estrada aberta, quem prende o passo é maldito
É o grito, é o passo, é o gesto.
É o passo, é o gesto, é o grito
O grito explode o protesto se a boca já não dá espaço que guarde o que há pra ser dito
É o grito, é o passo, é o gesto. É o gesto, é o grito, é o passo
É o passo, é o gesto, é o grito
Mário Lago
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