O protesto aconteceu hoje, em vários pontos do país. Levou mais de duzentas mil pessoas à Avenida da Liberdade, e a multidão espalhou-se pela baixa lisboeta. As razões do movimento são, como as pessoas por nós abordadas, as óbvias. Desmistificando o óbvio, arrancando-o à circularidade do conceito, as evidências apontam para que aquilo que levou as pessoas à manifestação foi o facto de se sentirem desconfortáveis (umas mais que outras) com a actual situação político-social, e também económica, mas motivos concretos e soluções objectivas não foram indicados.
Uma breve reflexão sobre o que observei hoje, relacionada com alguns conhecimentos, prefiro dizer ideias, acerca da sociedade, permite-me dizer com segurança que se atravessa uma crise mais grave que a económica, social ou política - uma crise de identidade, uma crise de sentido. A expansão de um mundo industrial ofegante, cria, na minha visão, uma crescente insegurança nas pessoas, que deixam de entender qual o seu papel no mundo. Encontram uma contradição entre a necessidade de viver em sociedade, em relação com os outros e com o mundo, e o desejo de se reconhecer como ser individual, com objectivos e metas individuais.
A referida insegurança afecta um pouco todas as pessoas, sendo esta, mais uma vez na minha forma de ver, a causa de os indivíduos se acomodarem e acabarem por aceitar passivamente as condições que se lhes impõem. Isto arruina a formulação e verbalização de críticas, o que resulta em que as pessoas não oiçam as suas opiniões. A melhor forma de conhecer algo, é falar sobre esse algo, trazê-lo à linguagem. Os pensamentos e as opiniões não são diferentes, o processo de tornar-se coerente requer uma organização conceptual, possível pela linguagem. Este processo é tem dimensões que não se podem medir, pois sempre levanta novas questões. É neste processo que nos conseguimos conhecer e pensar, de forma global e contextualizada. De outra maneira, não vejo como será possível conhecermo-nos e realizarmo-nos pessoalmente.
No entanto, e porque aprendemos/agimos na sociedade em que somos introduzidos pela reprodução de comportamentos-modelo, e não existem propriamente benefícios imediatos do esforço implicado no pensamento crítico, as pessoas não procuram construí-lo: isso não lhes dá dinheiro para pagar a casa e as contas.
No século XX, Abraham Maslow concebeu uma hierarquia de necessidades, na qual organiza sequencialmente as necessidades humanas, das mais primárias, que ficam na base, até às espirituais, que ficam no topo da pirâmide. As necessidades que estão na base, que têm obrigatoriamente que ser satisfeitas para que se possa passar ao patamar seguinte, são as «necessidades fisiológicas», onde se incluem a alimentação, higiene, sexo, excreção, homeostase, entre outras. Em seguida, vêm as «necessidades de segurança» do corpo, do emprego, da família, da saúde e da propriedade. Posteriormente, tem-se «amor/relacionamento», seguido de «estima» e, finalmente, quando todas as outras estiverem satisfeitas, é possível procurar atingir a «realização pessoal». Eu arriscaria agrupar as necessidades fisiológicas e de segurança num subgrupo mais abrangente, do conforto físico, ainda que necessário, para que seja mais fácil compreender a seguinte afirmação: as pessoas movimentam-se de forma circular na satisfação das necessidades primárias, de bens de consumo, num mecanismo de positivo feedback. Parece-nos óbvio que não é possível atingir a realização pessoal se não tivermos acesso a água ou alimentos, mas o que venho criticar é a forma como os obtemos. As pessoas compram cada vez mais, e cada vez mais caro, e é em bens de consumo que investem maioritariamente, em especial do mundo político, em que o poder de compra é obviamente mais elevado. Os próprios objectos, e agora penso em computadores, televisões, rádios, são construídos para não durar muito tempo, porque não duram. Há uma visível concentração em dar conta das mesmas necessidades, apenas com instrumentos diferentes, tecnologicamente mais evoluídos, mas não se passa daí. Isto observa-se na presença dos mais diversificados produtos nos mercados, em que há uma forte concorrência entre marcas, publicidades, funcionalidades. Desta maneira, ficamos igualmente sem procurar atingir a estima e a realização pessoal (falando sempre em termos globais).
Uma das coisas que chamou a minha atenção durante as abordagens aos populares no protesto, embora não me tenha surpreendido, foi o facto já referido de as pessoas não terem justificado de forma coerente a sua presença no mesmo. Muitos dirigiram-se até lá para "ver" ou por "solidariedade", o que me faz acreditar que, realmente, as pessoas individuais são movidas pelas massas, mais uma vez, sem pensar criticamente sobre a acção. Voltando ao princípio da manifestação, a saber, combate à precariedade laboral, administração de recibos verdes, desemprego, etc., mas focando-me agora na precariedade, penso que este é um estado com o qual qualquer pessoa se pode identificar. O sentimento de que "podia estar melhor" é comum a uma grande parte.
Porém, considero que é fundamental compreender a génese deste conceito: precariedade.
precariedade, nf Qualidade de precário.
precário, adj De pouca duração; contingente; incerto; inseguro; difícil; escasso; minguado; frágil; delicado.
A precariedade está dentro ou fora de cada um? Será que existe mesmo quando cumprimos os nossos objectivos, quando nos esforçamos, nos envolvemos profundamente e quando temos vontade? A precariedade mata a vontade (por exemplo, quando as situações são adversas no local de trabalho) ou é a vontade que é geralmente precária? - Na minha opinião, a precariedade não mata a vontade, nada a mata. A vontade, abertura ao mundo, é o que de mais nosso possuímos, o maior e mais divino. Nesse caso, e porque todo o cruzamento de contextos que é o indivíduo, é naturalmente elástico, a vontade que é forte não se deixa abalar, a menos que esteja enfraquecida de raíz. Faz então sentido pensar nas razões que levam a que a vontade dos indivíduos não seja tão forte que permita lutar (de forma devidamente fundamentada, segura e justificada) a favor da não-precariedade. Um dos factores que o não permite, a meu ver, é o facto de o sentido da vida de cada um estar adulterado pela ilusão social da negatividade e do trabalho obrigatório, recompensado monetariamente. Este cenário não pode continuar a ser visto sem esperança, nem sem vontade de mudar de verdade. Ainda não sabemos se a manifestação de hoje terá as consequências pretendidas, se é que as há.
Ainda não se sabe se o protesto de hoje foi histórico, só com o tempo se saberá. No entanto, tapar mais um buraco pode resolver o problema temporariamente, vai adiá-lo. Uma das revoluções necessárias é um pouco aquilo que estivemos a fazer no dia de hoje, ao interrogar as pessoas sobre o que as levou às ruas de Lisboa. É convidá-las a exercitar o pensamento e a perceber a dádiva de estar-no-mundo, tomar consciência das suas capacidades e dos outros. Isto abre portas a diversos mundos, e não é um projecto tão utópico quanto possa parecer. É-o, mas no bom sentido. Prende-se com uma mudança na forma de pensar que pode surgir quando se começar a tratar o ser humano como um todo verdadeiramente. Esquivo-me, desculpando-me da extensão do meu discurso, à operacionalização de "tratar o ser humano como um todo", mas a questão poderá vir a ser discutida.
Muito bom, Catarina! Focas-te umas ideias muito interessantes sobre a manifestação e também construiste pontes sobre outras temáticas muito pertinentes.
ResponderEliminarGostei imenso e será, de facto, muito entusiasmante discutir sobre esta temática. =)
Obrigada, João! É bom saber. Sem dúvida, discutir é das melhores coisas. :)
ResponderEliminarBom trabalho, Catarina. Gostei! :)
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