sábado, 19 de março de 2011

Manifestamente falando

Existe uma quantidade de angústias e pensamentos a bater à porta como se chovesse lá fora. Vou deixá-los entrar e transformá-los em opiniões. Estão secos e limparam os pés.

Nós, os contribuidores de Face à Face, fazemos reuniões regularmente, e numa delas, discutimos sobre algumas características do actual sistema de ensino com as quais não estamos de acordo. Uma das questões apontadas foi a visível fragmentação das áreas de saber, que isola demasiadamente os alunos de cada agrupamento (Ciências e Tecnologias/ Ciências Sociais e Humanas/ Artes Plásticas/ Economia) (só me referindo aos cursos científico-humanísticos) na sua área. A partir dos 15 anos de idade, em média, os alunos ficam com o pensamento orientado para a área que escolheram estudar. Este método tem as suas inegáveis vantagens, e um exemplo é o facto de alguns alunos poderem estudar aquilo que lhes mais interessa com maior profundidade e, previsivelmente, elevar o rendimento escolar. No entanto, acredito que esta selecção, ainda que não seja definitiva, cria pessoas deformadas. Se fosse possível fazer uma radiografia psicológica, posso afirmar com alguma probabilidade de estar certa que iriam surgir algumas cabeças enormes em relação ao resto do corpo (ver imagem). Nalgumas delas poder-se-ia ler "Matemática", noutras "História", noutras "Geometria Descritiva", etc.

Neste momento, poucas pessoas, jovens principalmente, existem que conheçam o funcionamento do Estado Português. Parece-me fundamental que qualquer cidadão que exerça o direito ao voto e que participe de alguma forma nas decisões políticas e sociais do seu país, conheça a organização do Estado, saiba o que se passa na Assembleia da República, perceba em traços gerais a Democracia. Assim, em situações de crise, é preciso que cada um entenda o que pode fazer para chegar ao Estado. Saber o que pode reivindicar e como fazê-lo. Com conhecimento de causa, tudo se torna mais transparente, fundamentado, e, portanto, legítimo. É também uma forma de conhecermos a nossa posição na nossa sociedade e no mundo.

Têm estalado manifestações e greves em todo o país nos últimos meses. Fala-se na rua, atiram-se insultos aos políticos, que "não sabem governar" e "só fazem o melhor para eles", formulam-se afirmações baseadas em outras conversas que se ouve nas ruas, o que torna crescente o descontentamento e a ofensa. Fala-se de olhos vendados e ouvidos estrangeiros, tomam-se medidas que não se fazem notar.

Há cerca de uma semana atrás, a propósito de uma ideia que dirigi às pessoas que se manifestam sem apresentar alternativas, ou sequer fazer o exercício de pensar nelas de forma global, recebi a seguinte resposta: «E não é o mais importante, as pessoas sentirem na pele o descontentamento? Ninguém tem de saber política para ver.» No incêndio da discussão, fiquei a sentir-me uma péssima pessoa. No entanto, não posso concordar. Estamos a falar de coisas diferentes: ninguém precisa de entender o que se está a passar para experimentar o descontentamento. Mas o que se pretende não será ao certo entender que algo não está a funcionar... Isso percebe-se à partida, pois não existe crise social se a sociedade tiver o funcionamento desejável. O que se quer é perceber o que está mal e como pode passar a funcionar.

Penso que é visível que se tornou senso comum estar deprimido com a política e com a sociedade. Mas o senso comum não gera soluções praticáveis e objectivas para os problemas. Encontra soluções pela negação do estado presente das coisas, o que é tão simples como falacioso. A título de exemplo: "Não tenho emprego; Quero ter emprego. Não ganho o que mereço; Quero ganhar o que mereço." 

Na minha opinião, e voltando ao início do texto, seria benéfico introduzir a disciplina de "Ciência Política" em todas as escolas do ensino secundário, em todos os agrupamentos e não só no de Ciências Sociais e Humanas. A ignorância assusta e produz comportamentos estéreis.

Não somos outro país nem temos outros governantes, mas podemos tornar-nos cidadãos informados e conscientes. Isso seria bom...

2 comentários:

  1. Porque não fazer 'Ciência Política' aqui mesmo!?! Uma revisão rápida de conceitos e organizações. Porque não começar com o de República. O que é uma República?

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  2. De uma forma muito pouco científica, uma República é um sistema político no qual o chefe de Estado (presidente da república, que é o maior representante do Estado) é eleito pelos cidadãos através do voto. Tem um mandato de duração estabelecida.

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